Pedro Bandeira atribui aos professores um papel decisivo na formação de leitores e na própria trajetória como escritor. Aos 84 anos, ele afirma que a escola foi o principal caminho para que seus livros chegassem a milhões de crianças e adolescentes e defende que estudantes com dificuldades de leitura recebam acompanhamento específico, sem serem rotulados como preguiçosos ou maus alunos.
A relação de Bandeira com os livros começou na infância, em Santos (SP), entre gibis lidos às escondidas e longas tardes diante das histórias. Ao terminar “Reinações de Narizinho”, de Monteiro Lobato, ele voltava à primeira página para recomeçar a leitura. Mais tarde, “A Ilha do Tesouro”, de Robert Louis Stevenson, e “O Tempo e o Vento”, de Erico Verissimo, também marcariam diferentes etapas de sua formação.
A escola esteve presente em momentos distintos de sua vida. Primeiro, como aluno da educação básica em Santos. Depois, em São Paulo, como professor de literatura brasileira e portuguesa no ensino médio e em cursos pré-vestibulares. Em 1983, com “O dinossauro que fazia au-au”, iniciou a carreira de autor de histórias destinadas ao público infantil e juvenil.
O professor como formador de leitores
Para Bandeira, o professor ocupa uma posição central porque muitas famílias não conseguem oferecer às crianças contato contínuo com livros, histórias e outras formas de linguagem. Ele observa que o leitor deve ser estimulado desde o berço, mas afirma que a escola frequentemente recebe estudantes sem essa experiência anterior.
O escritor também relaciona sua carreira à adoção escolar. Segundo ele, as crianças nem sempre procuram espontaneamente uma livraria para comprar um livro, mas costumam ler a obra indicada pelo professor. Por isso, resume sua dependência dos educadores na formação de sua trajetória profissional: “Sem o professor, eu não sou ninguém”.
Bandeira reconhece avanços no acesso à escola. Quando estudava, não havia vagas para todas as crianças e era necessário prestar exame de admissão para entrar no chamado ginásio, correspondente hoje ao ensino fundamental 2. Ao estudar a história da educação, ele descobriu que, naquele período, apenas 30% das crianças tinham vaga depois do primário.
Na avaliação do escritor, atualmente há vagas para todas as crianças, mas a valorização profissional não acompanhou essa mudança. Ele afirma que o professor precisa trabalhar em várias escolas para complementar a renda e que, com isso, dispõe de pouco tempo para ler, ir ao cinema, frequentar o teatro ou aprimorar sua prática.
Apoio para quem lê com dificuldade
Bandeira defende a criação de uma estrutura específica para estudantes que apresentam dificuldades de leitura e letramento. Em uma turma de 30 alunos, diz ele, alguns avançam com facilidade, enquanto outros precisam de um trabalho mais intenso. A professora responsável pela classe, porém, não pode deixar os demais de lado para acompanhar individualmente quem enfrenta maiores obstáculos.
A proposta apresentada pelo escritor é semelhante a uma UTI escolar: uma professora especializada atuaria fora do horário regular para ajudar os estudantes que mais precisam. O objetivo seria evitar que eles internalizassem classificações negativas. Para Bandeira, ninguém é mau aluno por escolha; a dificuldade está relacionada à impossibilidade de compreender adequadamente o que lê.
O trabalho, segundo ele, deveria começar de forma gradual. Uma possibilidade seria gravar a criança lendo uma frase para que ela própria percebesse eventuais problemas. Depois, poderiam ser utilizados quadrinhos, versos simples, letras de música, pequenas histórias e fábulas de Esopo. A progressão levaria, passo a passo, ao contato com livros mais longos.
Ele afirma que alguns estudantes avançam de ano sem dominar a leitura. No ensino médio, a falta de vocabulário dificulta a compreensão da linguagem usada pelos professores e pode contribuir para o abandono da escola. Por isso, considera que o ensino deve se concentrar também nos alunos que não conseguem avançar sozinhos.
Literatura dentro e fora da sala de aula
Entre as experiências que marcaram Bandeira está a de um professor que, ao adotar um livro, enviava um bilhete para que os pais também lessem a obra e conversassem com os filhos. Depois, promovia uma reunião. O escritor se recorda de ver pais e crianças dialogando sobre uma história compartilhada, em uma aproximação que nem sempre acontecia em torno de outros assuntos.
O livro escolhido naquela ocasião foi “É Proibido Miar”, adotado por um professor de Jundiaí. Bandeira também se lembra de uma atividade realizada a partir de “A Droga da Obediência”. Uma professora conversou com o juiz da comarca e organizou, em um tribunal vazio, o julgamento do vilão da história. Os alunos assumiram os papéis de juiz, promotor, advogado de defesa e jurados. Ao final, o defensor foi considerado tão convincente que o vilão acabou inocentado.
Aos leitores que encontrou na 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, Bandeira viu retornar esse vínculo entre literatura e escola. Professores que conheceram seus livros quando eram estudantes apresentavam as mesmas histórias a novas turmas. Os personagens dos Karas, iniciados com “A Droga da Obediência”, continuavam circulando entre gerações.
Em uma mensagem dirigida aos educadores, o escritor agradece pela dedicação e por não desistirem do trabalho de ensinar. Ele se apresenta como aliado dos professores na tarefa diária de educar e reafirma que continuará defendendo esses profissionais.


