Uberlândia, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
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Educação

Literatura na escola depende de mediação, diversidade e tempo para ler

Experiências de professores mostram que formar leitores exige mais do que oferecer livros: é preciso criar pertencimento, autonomia e espaço para escolhas.

Literatura na escola depende de mediação, diversidade e tempo para ler

O acesso aos livros é uma condição indispensável para formar leitores, mas não garante, sozinho, uma experiência significativa de leitura. Na escola, a mediação dos professores, a diversidade do acervo, o tempo dedicado às obras e a possibilidade de relacioná-las à vida dos estudantes são elementos decisivos para transformar o contato com a literatura em autonomia, pertencimento e consciência crítica.

Quando o livro encontra o estudante

Na Escola Municipal Professora Cynthia Cliquet Luciano, em uma comunidade periférica de São Sebastião, a professora de língua portuguesa Shirlei Rodrigues Pelizzaro encontrou uma turma considerada difícil pela própria comunidade escolar. Entre os estudantes estava Jorge, aluno do 8º ano que não acompanhava a leitura de “O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry.

Com experiência na aproximação entre literatura, teatro, artes e território, Shirlei apresentou à turma “O Pequeno Príncipe Preto”, de Rodrigo França. A obra permitiu discutir representatividade e ofereceu ao estudante uma porta de entrada para a leitura. Quando a professora decidiu levar a história ao teatro e dividiu o papel principal entre três alunos, Jorge aceitou participar. O envolvimento com a montagem fez com que ele passasse a estudar o texto, ganhasse confiança e se oferecesse para ler em voz alta.

A experiência resume uma ideia presente nas reflexões de professores, pesquisadores e escritores: formar leitores exige conhecer as pessoas que vão ler, seus interesses, angústias, referências e formas de expressão. O livro precisa estar disponível, mas também deve encontrar tempo, escuta e mediação.

A escola como espaço de formação

O escritor Jeferson Tenório, que trabalhou como professor de língua portuguesa e literatura na rede de Porto Alegre, defende que a escola não se limita à transmissão de conteúdos. Para ele, a instituição também participa da formação sensível dos estudantes, ao ampliar o contato com livros, histórias e diferentes maneiras de perceber o mundo.

Sua experiência em sala aparece em personagens como Henrique, professor de literatura em escolas públicas e na Educação de Jovens e Adultos, e Joaquim, jovem negro e pobre que encontra nos livros uma forma de compreender a realidade e ingressa na universidade por meio da política de cotas. Ao lembrar os alunos que acompanhou, Tenório resume: “Eu tive muitos Joaquins.”

A relação dos estudantes com a leitura, segundo o escritor, pode mudar ao longo da escolarização. Um aluno que rejeita livros em determinado momento pode se tornar um leitor assíduo mais tarde; o movimento inverso também acontece. No ensino médio, porém, estudantes negros e periféricos podem encontrar dificuldades para manter o acesso aos livros e concluir essa etapa da formação.

Por isso, a leitura não deve ser reduzida a uma tarefa feita para obter nota. O contato com a literatura precisa produzir algum sentido para a vida do estudante, em vez de se limitar ao cumprimento de uma atividade escolar.

Diversidade, território e representatividade

A formação leitora também depende da ampliação das vozes presentes nas estantes e nas salas de aula. José Augusto Souza dos Santos, professor de língua portuguesa, pesquisador e doutorando, afirma que sua própria trajetória foi marcada por professores alfabetizadores. Nascido no interior da Bahia, ele entrou na escola aos 8 anos e conta que, durante muito tempo, o livro lhe pareceu um bem distante.

Em sua pesquisa sobre a formação decolonial de professores, José questiona a predominância de autores, histórias e perspectivas reconhecidos como legítimos. A proposta não é abandonar os clássicos, mas perguntar quem ficou fora das bibliotecas, dos acervos e das aulas. Para isso, considera necessário ouvir os estudantes e conhecer as narrativas que fazem sentido para eles.

Na Escola Municipal Maria Dias Trindade, em Paripiranga, o projeto “Crônicas do meu lugar” aproximou leitura, autoria e território. Depois de conhecer cronistas brasileiros como Luis Fernando Veríssimo e Fernando Sabino, os alunos escreveram sobre a própria comunidade. A estiagem, a ansiedade e acontecimentos locais deram origem a uma coletânea digital, um podcast e um livro impresso.

Em São Sebastião, Shirlei também equilibra obras clássicas, autores contemporâneos e referências ligadas à experiência dos estudantes. Mulher negra, egressa da escola pública e formada em Letras pela USP, ela apresenta Machado de Assis como um homem negro e abolicionista, além de levar à sala de aula textos menos conhecidos do escritor.

Para a professora, a literatura pode funcionar como espelho, quando permite ao leitor reconhecer a própria vida, ou como janela, quando o conduz ao encontro com outras experiências. Essa combinação entre reconhecimento e descoberta orienta a escolha dos livros e ajuda a construir vínculos mais duradouros com a leitura.

Um percurso até os clássicos

No projeto “Caminhos da Água”, Shirlei partiu da literatura caiçara e de autores locais para aproximar os estudantes de obras indígenas, da memória do território, do Rio Laranjal e da produção de Cândido Portinari. O percurso culminou em “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto.

A professora considera que a preparação foi fundamental para que os alunos se envolvessem com o clássico. Depois da leitura mediada, eles produziram histórias em quadrinhos, cartas, mapas e diários. Em outro projeto, a montagem de “O sonho de Bitita”, de Carolina Maria de Jesus, levou os estudantes a participar de festivais e permitiu discutir a dignidade e os sonhos de quem vive nas periferias.

A literatura, nessa perspectiva, não serve apenas para apresentar obras consagradas. Ela também pode deslocar imagens cristalizadas sobre determinados grupos, aproximar os estudantes de autores que compartilham suas experiências e mostrar que diferentes territórios produzem conhecimento, memória e criação.

Currículo não substitui a experiência

Os documentos educacionais brasileiros deram pesos diferentes à leitura literária ao longo do tempo. A LDB não detalha uma concepção de leitura literária. Os PCN de língua portuguesa, de 1998, deram maior atenção à especificidade do texto literário e à formação do leitor. No ensino médio, essa abordagem perdeu espaço nos PCNEM e foi retomada pelas OCEM, em 2006.

Na BNCC, a literatura integra o campo artístico-literário. Neide Luzia de Rezende, professora da FEUSP, identifica nessa formulação uma mudança de ênfase: mais do que destacar apenas as características do texto, o documento valoriza a relação estabelecida pelo leitor com a obra, incluindo fruição, experiência estética e participação.

Ainda assim, um currículo não produz leitores por decreto. Entre a orientação oficial e a leitura efetiva existe a escola concreta, com suas condições, rotinas e possibilidades. A experiência literária requer tempo, conversa, escolha e confronto entre interpretações diferentes. Nem todo contato com um livro precisa ser imediatamente convertido em exercício ou avaliação.

Um direito que precisa de continuidade

Para que a literatura seja tratada como direito, o acesso não pode depender apenas da iniciativa individual de um professor ou de uma escola. Políticas públicas precisam garantir bibliotecas, acervos diversificados, programas de acesso ao livro, formação docente e continuidade administrativa.

A leitura exige tempo e não combina com ações interrompidas ou substituídas a cada gestão. Ao mesmo tempo, a escola transforma essas condições em prática cotidiana, e o professor realiza a mediação que aproxima o estudante do texto sem impor uma única maneira de interpretá-lo.

Tenório entende que ensinar literatura é diferente de simplesmente desenvolver uma habilidade de leitura. O professor pode iluminar aspectos que passaram despercebidos e chamar atenção para as entrelinhas, mas a experiência permanece subjetiva e depende da bagagem de cada leitor.

O objetivo final é a autonomia: formar alguém capaz de escolher o que deseja ler, reconhecer a importância dos livros e circular por bibliotecas, livrarias, festivais literários e outros espaços culturais. Para isso, a escola precisa oferecer acesso e repertório, mas também garantir que a leitura não seja uma obrigação isolada. É nesse encontro entre política pública, prática escolar e mediação docente que o direito à literatura deixa de ser apenas uma possibilidade e se torna experiência.

Texto produzido pela Redação Olhar Plural com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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