SÃO PAULO — A Bienal do Livro de São Paulo reúne filas, corredores cheios e um público estimado em mais de 700 mil pessoas, mas o movimento do evento não representa, por si só, a realidade da leitura no país. Dados recentes mostram que 53% da população não leu sequer parte de um livro nos três meses anteriores ao levantamento.
A 28ª edição da Bienal segue até 13 de setembro, no Distrito Anhembi, na zona norte da capital. O evento tem 269 expositores e programação voltada a autores, especialistas, educação e formação de leitores. Entre os espaços está o Espaço Educação, que promove debates sobre o papel da escola e as estratégias para aproximar crianças e jovens dos livros.
Um país com acesso desigual
Embora os indicadores de leitura permaneçam baixos, há sinais de recuperação no mercado editorial. Em 2025, 18% da população com 18 anos ou mais comprou ao menos um livro nos últimos 12 meses. No ano passado, foram vendidos mais de 6,5% de exemplares em relação a 2024, enquanto o faturamento das editoras chegou a R$ 4,5 bilhões no período.
Para Solange Petrosino, curadora do Espaço Educação, a concentração de público na Bienal não pode ser tomada como retrato do Brasil. A feira ocorre em São Paulo, onde há condições econômicas específicas e benefícios como o Vale-Livro, destinado a estudantes, servidores e bibliotecários da rede municipal de ensino. O benefício tem valor de R$100 para a compra de livros no evento.
A desigualdade também aparece na infraestrutura. O país conta com 4.691 bibliotecas públicas e comunitárias em atividade. O Plano Nacional de Livro e Leitura, aprovado pelo Ministério da Educação em conjunto com o Ministério da Cultura em abril deste ano, prevê ampliar em 50% o número dessas bibliotecas até 2036. A democratização do acesso à leitura está entre os objetivos do plano.
A experiência além da alfabetização
A escola permanece no centro da formação leitora, mas Solange diferencia a capacidade de ler da construção de uma relação efetiva com os livros. “A alfabetização, o processo formal de letramento e a fluência, é uma coisa. Mas existe a experiência leitora”, afirma.
Essa experiência envolve tanto a maneira como o texto mobiliza os estudantes quanto a possibilidade de compartilhar a leitura com outras pessoas. Casa, escola e espaços sociais podem contribuir para esse processo. A Bienal, segundo a curadora, é um desses ambientes de convivência e contato com os livros.
Antes de formar leitores, porém, a escola precisa enfrentar dificuldades básicas de compreensão. O último Programa Internacional de Avaliação de Alunos, desenvolvido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico com mais de 700 mil jovens de 15 anos, registrou índice de leitura de 466 — quase 40 pontos abaixo da média de 2012, primeiro ano da avaliação.
Para Solange, estudantes sem fluência podem decodificar as letras sem compreender o sentido do texto. Nesse cenário, professores têm papel decisivo para estimular os alunos, enquanto os próprios jovens podem participar da construção de uma geração leitora.
Identificação e diversidade
A escolha dos textos também influencia a aproximação dos estudantes com a leitura. A curadora defende a presença de autores e temas que dialoguem com os interesses e as realidades das turmas. Obras de autores periféricos, de diferentes etnias ou originários podem favorecer a identificação e ampliar o envolvimento dos jovens.
Isso não significa limitar as leituras ao contexto imediato dos alunos. Livros ligados a outras experiências também ampliam a visão de mundo e o repertório. A combinação entre referências conhecidas e perspectivas diferentes pode tornar a leitura mais próxima e, ao mesmo tempo, expandir seus horizontes.
A escola ainda tem uma função de acesso material aos livros, sobretudo para estudantes que vivem em famílias com menor nível socioeconômico. Ao disponibilizar um universo variado de obras, contribui para que a formação leitora não dependa exclusivamente do acervo existente em casa.
A Bienal mantém, até 13 de setembro, atividades no Distrito Anhembi voltadas à leitura e à educação. A programação reúne autores, especialistas e iniciativas que discutem como fazer da leitura uma prática compartilhada e acessível em diferentes espaços sociais.


