BRASÍLIA — A rotina de Henrique, um ex-cineasta que vive isolado em um sítio após ficar paraplégico, é alterada pela chegada de Gustavo, um jovem enviado por um amigo para cuidar dele. A relação entre os dois conduz Todo o Sentimento, novo longa de Ary Rosa e Glenda Nicácio, apresentado como uma ficção sobre o que poderia ocorrer caso a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 tivesse sido bem-sucedida.
A diretora define o filme como uma obra sobre o cansaço. Na história, esse sentimento aparece associado a um país em que avanços sociais são seguidos por reações conservadoras capazes de produzir retrocessos. A distopia imaginada pelos cineastas apresenta uma ditadura teocêntrica, repressiva e violenta, na qual o desejo é proibido e a separação entre homens e mulheres é determinada pela religião.
Entre o sítio e a televisão
O cenário em que Henrique e Gustavo convivem tem imagens plácidas, ligadas ao sítio colonial onde os personagens vivem. Em contraste, as transmissões televisivas exibem pastores e pastoras que gritam palavras de ordem. Os homens aparecem vestidos de azul, enquanto as mulheres usam rosa, em uma organização apresentada como exigência religiosa.
A composição inclui o personagem Silas Macedo, nome que reúne referências a Silas Malafaia e Edir Macedo. A narrativa também evoca Ilha, filme realizado pela dupla em 2018. No contexto queer do Festival de Brasília 2026, o longa inclui uma cena de sexo construída mais por palavras do que por atos. “Ninguém vai nos tirar o tesão”, afirma um dos personagens.
A tensão política do país dá atualidade ao filme e à hipótese de retorno da extrema-direita ao poder. A história se concentra, porém, no vínculo entre Henrique e Gustavo, enquanto o ex-cineasta precisa lidar com a presença do novo companheiro e com a solidão que marcava sua vida no sítio.
Outros filmes da programação
Entre os curtas da mostra, Cana, de Daniel Rone e Guilherme Xavier Ribeiro, acompanha dois jovens negros em uma camionete que percorre uma estrada cercada por plantações de cana-de-açúcar. O percurso aproxima o filme do terror e do fantástico.
Na mostra dedicada às produções do Distrito Federal, Onde Moram os Irmãos, de Marisa Mendonça, apresenta Lívia, interpretada por Liliane Rovaris. Depois da morte do irmão e diante do luto prolongado do pai, ela assume a administração do patrimônio imobiliário da família. Com problemas com o álcool e comportamento invasivo, a personagem se envolve na vida privada dos inquilinos. A narrativa alterna situações cômicas e patéticas, com uma câmera ágil e instável voltada para a protagonista.


