BRASÍLIA — O longa-metragem Sabes de Mim, Agora Esqueça, dirigido por Denise Vieira, do Distrito Federal, acompanha uma mulher perseguida por agentes de repressão em um Brasil distópico. A história se passa em Ceilândia, nos arredores do Plano Piloto de Brasília, e tem entre seus elementos centrais cenas explícitas de sexo, além de diálogos francos sobre trabalho, desejo e relações com clientes.
Rubia, interpretada por Pietra Sousa, está em fuga quando o trem em que viaja quebra. Ela é resgatada por Margô, personagem de Cida Souza e proprietária de um bordel local, onde a fugitiva passa a trabalhar. Rubia escapava dos Lanternas, figuras encarregadas de patrulhar as noites e perseguir garotas como ela, em nome de uma moralidade imposta.
O bordel funciona como o principal espaço dramático do filme. Seus corredores estreitos produzem uma atmosfera claustrofóbica e ameaçadora, enquanto o local guarda um segredo que não pode ser revelado. A ambientação também é associada a um útero materno e, em determinados momentos, a um portal para o inferno.
As profissionais que vivem e trabalham ali não aparecem apenas em função dos atendimentos. O filme acompanha suas aspirações, ideias e subjetividades. Em uma das sequências, elas conversam de modo jocoso sobre o cotidiano profissional e o relacionamento com os clientes. A linguagem direta, com termos presentes na fala cotidiana e pouco frequentes no cinema, reforça o naturalismo da cena.
Memória das grandes obras
Em determinado momento, a obra assume uma abordagem documental para tratar da presença quase institucional, embora nunca assumida, de bordéis próximos a grandes obras, como barragens e áreas de mineração. O filme menciona também a construção da Novacap nos anos 1950 e estabelece uma relação com documentários como Brasília Segundo Feldman, exibido em cópia restaurada durante o festival em homenagem ao documentarista Vladimir Carvalho.
O longa aparece entre os possíveis candidatos aos Candangos, prêmios do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Os vencedores seriam anunciados no sábado, antes do encerramento do festival, marcado pela exibição de Verão da Lata, de Santiago Dellape.


