BRASÍLIA — A cidade de Catalão, em Goiás, é transformada em matéria cinematográfica por Daniel Nolasco em Pequenas Tragédias, longa que atravessa lembranças pessoais, relações afetivas e uma crítica ao conservadorismo e à homofobia. A obra foi exibida no Cine Brasília e recebeu longos aplausos do público durante a 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
O filme parte da trajetória do próprio diretor, que nasceu e viveu em Catalão antes de se mudar para o Rio. Na tela, Guilherme Théo interpreta um personagem que se apresenta como representação de Nolasco. A narração em off é conduzida por outra voz, também pertencente a um ator, criando uma distância entre o autor e a história que ele coloca em cena.
Memória, desejo e deslocamento
A autobiografia aparece de modo fragmentado. O longa recupera a infância do diretor, os anos em que trabalhou em um supermercado da cidade e a demissão que encerrou esse período. Nolasco tentou filmar no estabelecimento, mas não recebeu autorização. A partir daí, a narrativa se desloca para namoros, amizades, encontros casuais e cenas de sexo.
Em uma passagem irônica, o personagem que representa o diretor fecha a porta de um banheiro onde um casal troca carícias e afirma: “Desculpem, mas prometi ao meu distribuidor que o filme não teria nenhuma cena de sexo”. A provocação integra a maneira como o longa tensiona as expectativas sobre a representação da sexualidade gay.
Nolasco, historiador de formação, distingue o cinema LGBT que adapta a sexualidade a padrões narrativos e estéticos heterossexuais do cinema queer, apresentado por ele como uma forma de confronto com o conservadorismo e as posturas heteronormativas. Catalão passa a funcionar, assim, como imagem de um interior brasileiro marcado pela intolerância e pela violência contra homossexuais.
Histórias de uma cidade
A dimensão política não esgota o filme. Entre as histórias narradas está o encontro póstumo com um amigo soropositivo, que morreu sem revelar a ninguém que estava doente. Outra personagem é Monalisa, uma travesti cuja vida se restringe a um pequeno quarteirão da cidade. Sua existência ganha outra escala quando ela interpreta uma canção que se aproxima de um retrospecto de sua trajetória.
O humor aparece ao lado dessas passagens, não apenas como interrupção da tristeza, mas como parte da convivência entre alegrias e perdas. A construção visual recorre a simetrias, imagens geometricamente organizadas e uma narração irônica. A estrutura do longa é composta por um prólogo, cinco capítulos, um entreato e um epílogo.
A curva dramática acompanha a transformação de Catalão: da ironia inicial, passa pela violência contra homossexuais e pelo extermínio dos indígenas que deram nome à localidade, até chegar a uma cidade apresentada como semideserta e semimorta.
“Fui estudar no Rio e lá fiquei. Quando voltei, descobri que todos os meus amigos ou tinham morrido ou mudado de cidade. Quem ficou, morreu”, disse Nolasco ao comentar a relação entre sua história e a cidade retratada.
As imagens próximas do final são apresentadas como registros estáticos de uma cidade em desaparecimento. A obra também incorpora referências declaradas pelo diretor: a videoarte Why I Never Became a Dancer, de Tracey Emin; o texto Não podemos todos morrer na cama, de Guy Hocquenghem, sobre a morte de Pasolini; e o cinema alemão de Rosa von Praunheim e Rainer Werner Fassbinder.


