Morto nesta terça-feira, 22, aos 95 anos, Zuenir Ventura deixou uma obra dedicada a interpretar as transformações políticas, culturais e sociais do Brasil. Escritor e jornalista, ele combinou investigação, atenção aos personagens e uma escrita próxima do leitor para tratar de acontecimentos decisivos do país.
Entre seus livros, estão relatos sobre a efervescência de 1968, as desigualdades do Rio de Janeiro, o assassinato de Chico Mendes e os bastidores de sua própria trajetória profissional. Quatro obras ajudam a acompanhar diferentes dimensões desse trabalho.
1968 e a transformação do país
Publicado em 1988, 1968: O Ano que Não Terminou reconstitui um período marcado pela mobilização estudantil, pela renovação dos costumes e pelo endurecimento da ditadura militar. Com entrevistas e pesquisa, Zuenir acompanha os acontecimentos políticos e a produção cultural que desembocaram na edição do AI-5.
O livro inspirou a minissérie Os anos rebeldes, produzida pela TV Globo. Um de seus capítulos, Um herói solitário, também deu origem ao filme O homem que disse não, realizado pelo cineasta Olivier Horn para a televisão francesa.
Violência e desigualdade no Rio
A chacina de Vigário Geral, que deixou 21 mortos em agosto de 1993, conduz a investigação sobre as divisões sociais do Rio de Janeiro. Durante dez meses, Zuenir frequentou a comunidade e ouviu moradores para compreender como grupos que compartilham a mesma cidade vivem realidades distintas. Publicado em 1994, o livro rendeu ao autor o Prêmio Jabuti 1995 de Melhor Reportagem.
O caso Chico Mendes
Em Chico Mendes: Crime e Castigo, o jornalista reúne reportagens sobre o assassinato do líder seringueiro e ambientalista, ocorrido em dezembro de 1988, no Acre. A narrativa acompanha a investigação, o julgamento dos responsáveis e o retorno de Zuenir à região, quinze anos depois da morte.
Dividida em três partes, a obra reúne textos publicados no começo de 1989, relatos produzidos em 1990 com Marcelo Auler e materiais de outubro de 2003, quando o autor revisitou lugares e personagens ligados ao crime. O livro também examina os conflitos relacionados à terra e à preservação da Amazônia.
Memória e jornalismo
Em Minhas Histórias dos Outros, Zuenir revisita a própria vida a partir das pessoas com quem conviveu, entre elas Nelson Rodrigues, Betinho, Darcy Ribeiro e Glauber Rocha. As memórias se misturam aos bastidores das redações e das reportagens, formando um retrato do jornalista e de seu tempo. A obra é apresentada como “um acerto de contas com seu passado e suas lembranças”.

