Carlos Motta aprendeu a pensar a própria trajetória como uma forja: um processo de calor, impacto e transformação. Arquiteto, marceneiro e surfista, ele trabalha há 74 anos sobre a própria existência, como quem tenta dar forma a uma matéria que nunca se apresenta acabada.
Nascido em São Paulo, filho de uma descendente de imigrantes italianos e de um publicitário que não se casou com sua mãe, Motta passou a infância entre conflitos familiares e dificuldades escolares. Foi expulso de quase todas as escolas em que estudou, sem que percebessem que era disléxico. Também foi forçado a escrever com a mão direita, embora fosse canhoto, experiência que, segundo ele, provocou cacoetes que permanecem até hoje.
A arquitetura surgiu em Mogi das Cruzes, onde estudava depois de viajar diariamente de trem. Formou-se em 1975 e estagiou no escritório de Paulo Mendes da Rocha. Na faculdade, encontrou na marcenaria uma possibilidade de converter desenhos em objetos tridimensionais. A experiência foi decisiva: pela primeira vez, diz, quis compreender profundamente um processo.
Da arquitetura à marcenaria
Antes de estabelecer seu trabalho no Brasil, Motta passou pela Califórnia, onde a contracultura atravessava a vida cotidiana nos anos 1970. No Cabrillo College, em Santa Cruz, estudou marcenaria e metalsmith, curso voltado à construção de navios. Também aprendeu a fazer ferramentas, construção civil e até técnicas de parto, porque sua mulher estava grávida e ele queria participar do nascimento do primeiro filho.
A temporada reuniu trabalho, vida familiar e experimentação. Motta surfava, plantava fumo em casa, cuidava do filho e construía móveis. No verão de 77, Neil Young, músico de quem afirma gostar intensamente, era seu vizinho.
De volta ao Brasil em 1978, abriu o Atelier Carlos Motta na Vila Madalena. Em 1985, inaugurou a Fábrica de Cadeiras São Paulo, nome inspirado na cadeira desenhada três anos antes. Em 1986, conquistou o primeiro lugar na categoria móveis do Prêmio Museu da Casa Brasileira.
Seu trabalho utiliza principalmente madeira de demolição, complementada por madeira certificada quando o reúso não é possível. Os móveis integram coleções e galerias em cidades da Europa e dos Estados Unidos, enquanto seus projetos de arquitetura se espalharam do litoral norte de São Paulo à Patagônia chilena e ao Havaí.
A responsabilidade ambiental na escolha dos materiais e a responsabilidade social na distribuição do lucro são, para Motta, princípios centrais de sua empresa. Ele afirma que foram necessários 35, quase 40 anos para que o negócio se consolidasse financeiramente. A relação entre corpo e objeto também orienta sua criação: cadeiras, poltronas e casas precisam oferecer conforto, ergonomia e afeto.
A casa como abrigo
Há 31 anos, Motta frequenta São Francisco Xavier, distrito de São José dos Campos localizado na Serra da Mantiqueira. Decidiu morar ali há sete anos, atraído pela possibilidade de se aproximar das nascentes dos rios que deságuam no mar onde passou a vida surfando.
A paisagem orienta sua maneira de projetar. Ele diz nunca ter feito um corte com máquina ou um platô para instalar uma construção. Antes de erguer uma casa, considera a presença de insetos, pequenos animais e pássaros. Para ele, ocupar um terreno sem levar em conta essas vidas seria uma forma extrema de violência.
Em um terreno na praia de Camburi, encontrou teiús, cutias e gambás. A casa que construiu foi concebida para produzir o menor impacto visual e ambiental possível. A estrutura recebeu pilares apoiados no morro, e a pintura adotou o mesmo verde da Mata Atlântica ao redor, de modo que a construção se misturasse à paisagem.
Essa concepção se aproxima da ideia de abrigo, palavra que Motta associa ao livreto “Shelter”, produzido durante o período de questionamentos da contracultura sobre onde e como morar. Para ele, a arquitetura deve acolher sem impor uma ruptura ao lugar.
O câncer e a permanência do desejo
Nos últimos anos, Motta descobriu um câncer no sangue chamado mieloma múltiplo. O diagnóstico interrompeu sua rotina de surfe: faz um ano e meio que não entra no mar, porque sua hemoglobina está baixa e atravessar uma arrebentação se tornou praticamente impossível.
Ele passou por um transplante de medula e permaneceu 22 dias em um quarto isolado, com um cateter introduzido na jugular. As plaquetas chegaram a 9 mil. O tratamento o salvou, mas depois surgiu um segundo câncer, a síndrome mielodisplásica.
Motta afirma que não se considera indestrutível e que sempre viu a morte como a única certeza absoluta. O câncer, porém, foi vivido como um impacto particular por ser uma doença que ele entende como parte do próprio corpo. “Existir é um privilégio enorme, mesmo adoecido”, disse.
Apesar do tratamento, afirma não ter perdido o desejo pela vida nem a gratidão pela existência. Continua se reconhecendo como surfista e diz que assim permanecerá até o fim. A presença da filha Layla e dos netos, que vivem com ele, aparece como uma fonte de alegria em meio ao adoecimento.
Um liceu para preservar saberes
Em São Francisco Xavier, Motta prepara a criação de um instituto para abrigar o acervo de cinquenta anos de trabalho. O projeto também inclui um Liceu de Artes e Ofícios, começando pela marcenaria e avançando depois para a serralheria e os trabalhos em couro.
A proposta retoma uma ausência que marcou sua própria formação: quando procurou aprender marcenaria em São Paulo, o curso do Liceu de Artes e Ofícios havia fechado. Agora, ele pretende formar mão de obra e preservar conhecimentos que, segundo relata, estão desaparecendo com o envelhecimento dos artesãos.
O terreno foi comprado na cidade, a um quarteirão da praça central, para facilitar o acesso de estudantes e pessoas mais velhas. Motta já teve reuniões com o prefeito, o secretário do Meio Ambiente e representantes da Fundação Cultural Cassiano Ricardo.
O projeto se relaciona ao grupo Regenera, criado antes da pandemia para fortalecer o contato com a comunidade e valorizar as características de São Francisco Xavier. Depois de uma vida urbana e ligada ao litoral, Motta afirma estar concentrado na Mantiqueira e na ideia de afeto como eixo de sua relação com o trabalho, a paisagem e as pessoas.
Para ele, madeira, animais e seres humanos não podem ser compreendidos separadamente. O convívio, afirma, é o que dá sentido à existência: nenhum elemento deve apenas usar o outro e seguir adiante. A mesma preocupação aparece quando fala da praia, da ocupação dos lugares e da destruição de comunidades. Em sua visão, a natureza não é cenário, mas parte de uma convivência da qual os seres humanos também dependem.


