O Inep orienta que a escolha de referências na redação do Enem não deve se limitar ao uso de citações conhecidas. Para contribuir com a nota, o repertório precisa estar ligado ao tema, sustentar a argumentação e ajudar a ampliar a discussão sobre a realidade brasileira. Quando aparece apenas como uma introdução elegante, sem função no desenvolvimento das ideias, pode ser considerado “improdutivo”.
A orientação está na Cartilha de Redação 2026, publicada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. O documento afirma que o emprego de repertórios de bolso não leva, por si só, à nota zero, mas pode prejudicar o desempenho do candidato.
O papel da Competência 2
A análise do repertório está associada à Competência 2, que verifica se o participante compreendeu a proposta, aplicou conhecimentos de diferentes áreas e desenvolveu o assunto dentro do formato dissertativo-argumentativo em prosa.
Na prática, não basta mencionar um filósofo, uma obra ou um acontecimento histórico. A referência deve ser explicada e articulada ao ponto de vista defendido. Também é necessário que o texto mostre por que aquele conhecimento ajuda a interpretar o problema apresentado na proposta.
A cartilha define os repertórios de bolso como referências memorizadas e adaptadas de modo amplo a diferentes assuntos, sem aprofundamento ou conexão efetiva com o tema. Por serem versáteis, podem parecer uma solução segura para iniciar a redação. O risco surge quando a citação é mantida no texto mesmo que sua retirada não altere a compreensão nem a força dos argumentos.
Características de uma boa referência
Segundo os critérios apresentados pelo Inep, um repertório produtivo deve ser pertinente ao assunto, contextualizado e relacionado aos argumentos. Ele também precisa ter reconhecimento social, servir de base para a defesa da tese e permitir que o candidato relacione a discussão à realidade brasileira.
Um dos exemplos da cartilha trata do envelhecimento da população brasileira. No texto, a Constituição Federal de 1988 é apresentada como um marco para o reconhecimento da dignidade e dos direitos sociais como responsabilidades do Estado. A referência não fica isolada: ela é conectada às dificuldades enfrentadas por pessoas idosas no acesso à saúde, à assistência social e à inclusão.
O exemplo estabelece, assim, uma relação entre os direitos previstos e sua aplicação concreta. A Constituição funciona como fundamento para a ideia de que políticas públicas devem ser fortalecidas, e não apenas como uma informação histórica inserida no início do parágrafo.
Referências que não desenvolvem o tema
A cartilha também apresenta um trecho que menciona A República, de Platão. A obra aparece associada à noção de uma sociedade ideal, mas o texto não explica de maneira suficiente como esse conceito contribui para compreender o envelhecimento da população brasileira.
Para o Inep, a ligação entre a referência filosófica e o tema é superficial. A menção a Platão poderia ser retirada sem alterar de modo significativo o entendimento do parágrafo. Nesse caso, a ideia de sociedade ideal é usada como uma abertura genérica, sem fundamentar a discussão sobre dignidade, inclusão ou proteção das pessoas idosas.
Outro exemplo recorre à afirmação de Aristóteles de que o ser humano é um “animal político”. Depois da citação, o texto apenas declara que o envelhecimento deve ser discutido e que a sociedade precisa refletir sobre o problema. Não há explicação sobre como o conceito filosófico se relaciona a aspectos específicos da velhice ou da condição das pessoas idosas no Brasil.
A referência, portanto, cumpre função predominantemente ornamental. Embora não seja inválida, sua contribuição para a argumentação é pequena, pois poderia ser substituída por outras citações genéricas sem comprometer o sentido do texto.
Os exemplos mostram que o problema não está no uso de autores conhecidos nem na escolha de uma referência que possa dialogar com diferentes assuntos. O ponto central é a maneira como esse conhecimento é mobilizado: ele deve justificar, aprofundar ou ampliar a análise, estabelecendo uma relação clara com a proposta de redação.


