A Rússia realizará, entre 18 e 20 de setembro, eleições para a Duma, seu Parlamento, em áreas ucranianas sob ocupação. A votação ocorre em Donetsk, Luhansk, Zaporizhzhia e Kherson, territórios que Moscou declarou anexados em 2022, depois de referendos rejeitados pela ONU.
A organização afirmou que as consultas não poderiam produzir qualquer mudança no status internacional dessas áreas. Para o analista político Oleksandr Slyvychuk, coordenador do Programa de cooperação para Espanha e América Latina do Transatlantic Dialogue Center, a forma de descrever o processo pode ocultar a situação jurídica dos territórios. “Trata-se de eleições organizadas pela Federação Russa em partes internacionalmente reconhecidas como território da Ucrânia e mantidas sob controle russo”, afirmou.
Uma aparência de normalidade
A votação não tem apenas o objetivo de definir os assentos da Câmara Baixa russa. Ao levar a população dos territórios ocupados para o eleitorado da Duma, Moscou procura apresentar a presença russa como uma questão administrativa interna e vinculá-la ao funcionamento regular do Estado.
A participação de cidadãos em seções eleitorais também contribui para construir uma imagem de integração. Depois da anexação, a Rússia iniciou a distribuição de passaportes, alterou sistemas administrativos e incorporou estruturas locais ao Estado russo. As eleições ampliam esse processo ao inserir os moradores no sistema eleitoral da Federação Russa.
Slyvychuk questiona a autoridade para a realização de eleições nacionais em território de outro país. Ele também diferencia uma votação de uma eleição livre pelo ambiente em que o processo ocorre: as regiões permanecem envolvidas em uma guerra; parte considerável da população original foi deslocada; outros moradores deixaram os territórios ocupados; e as instituições políticas e administrativas anteriores à ocupação foram substituídas ou subordinadas às autoridades instaladas por Moscou.
Nesse contexto, a urna cumpre uma função que ultrapassa a escolha de deputados. A eleição é apresentada como instrumento para transformar a ocupação em uma aparência de integração e normalidade administrativa.


