Analistas consultados sobre a guerra entre Rússia e Ucrânia não veem nos contatos diplomáticos recentes sinais de que um acordo de paz esteja próximo. Para eles, a possibilidade de uma nova rodada de conversas não representa, por si só, mudança na posição do Kremlin.
Roland Freudenstein, especialista em segurança do Brussels Freedom Hub, avalia que o governo de Donald Trump tenta apresentar resultados antes das eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos. Na interpretação dele, Moscou procura criar uma divisão entre Washington e Kiev sem abandonar sua estratégia principal.
“Putin mantém a ilusão de que está sempre pronto para negociar”, afirmou Freudenstein. Segundo o especialista, o presidente russo não cedeu em quatro anos e meio e não o fará enquanto considerar possível vencer a guerra.
Contatos diplomáticos e resistência europeia
O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, não descartou a realização de negociações entre Rússia, Ucrânia e Estados Unidos em outubro. A sinalização ocorreu depois de reuniões mantidas por representantes americanos com os governos russo e ucraniano.
No começo de setembro, Steve Witkoff, enviado especial do governo americano, e Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos, estiveram em Moscou para conversar com Vladimir Putin. Em seguida, foram a Kiev, onde se reuniram, em 6 de setembro, com Volodimir Zelenski e integrantes do governo ucraniano. Representantes das áreas de segurança nacional de França, Alemanha e Reino Unido acompanharam os encontros na capital ucraniana.
Uma fonte do governo francês disse que os americanos compartilharam com aliados europeus o conteúdo das conversas com Putin. A mensagem transmitida a Paris indicava uma “nova disposição da Rússia para negociações” depois do encerramento das eleições para a Duma, a câmara baixa do Legislativo russo. A retomada, conforme esse relato, exigiria a preparação das condições para reabrir o processo negociador.
A Comissão Europeia reagiu com reservas. Christian Wiegand, porta-voz do órgão, defendeu a continuidade das sanções contra o governo russo e da assistência à Ucrânia. “Precisamos da vontade da Rússia, que claramente não vemos no momento”, declarou.
Dúvidas sobre a influência das eleições
Arkady Moshes, pesquisador do Instituto Finlandês de Assuntos Internacionais, afirmou ser extremamente cético quanto a negociações de paz com os Estados Unidos e ainda mais quanto à participação dos europeus. Ele descreveu como “extremamente radical” o posicionamento oficial de Moscou, concentrado nos resultados militares no terreno.
Para Iulian Romanyshyn, da Universidade de Bonn, a expectativa de que o resultado da eleição para a Duma abra espaço para conversas não se sustenta, porque as decisões estratégicas do Kremlin não dependem do pleito. O adiamento também poderia servir, na avaliação dele, para evitar novas sanções americanas.
Zelenski declarou à DW que aceitaria encontrar Putin durante a cúpula do G20, marcada para dezembro em Miami. O Kremlin recusou a proposta. Freudenstein ainda relaciona o comportamento russo à proximidade do inverno, período em que Moscou tende a intensificar ataques contra a infraestrutura energética ucraniana antes de um eventual recuo em suas exigências.


