Uberlândia, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
Ideias, cultura e reportagem
Mundo

O tamanho não basta para explicar a resistência das árvores à seca

Estudos em florestas da Amazônia, da África e de Bornéu mostram que a vulnerabilidade depende de condições locais e estratégias fisiológicas.

O tamanho não basta para explicar a resistência das árvores à seca
Foto: Zairi/500px/Getty Images

Árvores gigantes podem manter o transporte de água mesmo sob a pressão imposta pela altura, mas essa capacidade não se repete de maneira uniforme entre florestas tropicais. Pesquisas realizadas em diferentes regiões indicam que a relação entre tamanho e vulnerabilidade à seca depende das condições ambientais, das características das espécies e até das diferenças entre indivíduos de uma mesma espécie.

O que os estudos revelam

Em uma análise realizada em 2015 sobre florestas de várias partes do mundo, pesquisadores observaram que as árvores maiores tinham mais probabilidade de morrer ou apresentar crescimento reduzido durante períodos de seca. A explicação estava nos desafios associados à altura: essas árvores precisam levar água das raízes até folhas situadas dezenas de metros acima do solo e ficam mais expostas ao calor, à luz solar e às condições atmosféricas adversas nas copas.

A teoria hidráulica oferece uma explicação para esse risco. A água percorre o tronco em uma coluna contínua sob tensão, semelhante ao líquido puxado por um canudo. Durante uma seca intensa, essa coluna pode se romper, provocando falha hidráulica e, potencialmente, a morte da árvore. Em 2012, pesquisadores mostraram que muitas espécies operam próximas dos limites de seus sistemas de transporte de água durante uma seca.

A seca associada à fase quente do El Niño de 2015-16 na Amazônia pareceu confirmar esse padrão. Mais de meio milhão de árvores foram medidas por uma equipe que investigava os efeitos do evento nas florestas sul-americanas. O sumidouro líquido de carbono da região praticamente desapareceu, enquanto a mortalidade aumentou entre árvores de todos os tamanhos, com crescimento mais acentuado entre as de maior porte.

As perdas mais intensas, porém, não ocorreram necessariamente nas florestas mais úmidas. Os efeitos foram mais graves em áreas que já cresciam sob condições relativamente secas, especialmente nas bordas da Amazônia. Mesmo espécies habituadas à seca sazonal foram vulneráveis ao calor extremo e ao estresse hídrico excepcional. Árvores de madeira menos densa também apresentaram maior vulnerabilidade, em linha com as previsões da teoria hidráulica. Um estudo de 2023 indicou que características hidráulicas podem prever diretamente o risco de mortalidade por seca na Amazônia.

Respostas diferentes entre continentes

As florestas tropicais africanas apresentaram um padrão distinto durante o mesmo El Niño de 2015-16. Nelas, a redução do crescimento foi mais intensa entre as árvores menores, enquanto as maiores pareceram relativamente mais protegidas do estresse hídrico.

A diferença impede uma conclusão universal sobre o efeito da seca. Em algumas florestas, a falha hidráulica pode ser a principal causa de morte. Em outras, a competição, a limitação de carbono ou perturbações podem ter maior peso. Por isso, a questão passou a ser menos se as árvores grandes são mais vulneráveis e mais em quais condições essa vulnerabilidade aparece.

Um estudo publicado na revista Nature, com florestas distribuídas por um gradiente de precipitação em Porto Rico, acrescentou que a resistência à seca também pode variar dentro de uma mesma espécie. Árvores situadas em florestas mais secas apresentaram maior resistência à falha hidráulica. A resiliência, portanto, pode depender tanto das espécies presentes quanto da capacidade de adaptação às condições locais.

O caso das dipterocarpáceas

As dipterocarpáceas estão entre as gigantes das florestas do Sudeste Asiático. Com grande porte e madeira de alta densidade, essas árvores armazenam grandes quantidades de carbono e frequentemente se elevam acima do dossel. Elas incluem algumas das árvores tropicais mais altas da Terra e são predominantes em muitas florestas da região.

Em Bornéu, um estudo recente constatou que essas árvores parecem compensar os desafios hidráulicos associados à altura por meio de ajustes anatômicos e fisiológicos. Assim, conseguem preservar o funcionamento do sistema de transporte de água apesar do tamanho.

Esse resultado sugere que a altura, por si só, não determina a vulnerabilidade. O porte pode funcionar apenas como indicador de uma exposição maior ao calor e à secura nas copas. Quando uma espécie consegue compensar fisiologicamente essas condições, a relação entre tamanho e risco se torna menos direta.

Árvores verdadeiramente gigantes são raras e ainda pouco estudadas. Em parcelas de inventário florestal de longo prazo, os maiores exemplares costumam representar apenas alguns troncos, e as chamadas árvores grandes dos conjuntos de dados frequentemente são menores do que as gigantes encontradas em Bornéu.

Ainda não se sabe se as dipterocarpáceas são excepcionais ou se a ciência simplesmente avaliou pouco a resistência das árvores gigantes em outras partes do mundo. O que os estudos tornam mais evidente é que não há uma regra única capaz de prever como as florestas responderão às secas.

Texto produzido pela Redação Olhar Plural com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

Entre na nossa newsletterO melhor da semana, sem spam.