A polícia alemã se prepara para protestos e possíveis episódios de violência durante a eleição estadual de Saxônia-Anhalt, no leste do país, marcada para domingo (6). A votação pode levar a AfD, partido de extrema direita, ao governo de um estado alemão pela primeira vez no período posterior à Segunda Guerra Mundial.
A legenda aparece com mais de 40% das intenções de voto e pode conquistar a maioria, ou quase a maioria, das cadeiras do Parlamento estadual, cuja sede fica em Magdeburgo. O resultado é considerado sensível pelas autoridades porque os demais partidos mantêm a chamada Brandmauer, ou firewall, que impede alianças legislativas com a AfD.
Sem apoio de outras siglas, a legenda só conseguiria indicar o ministro-presidente — função equivalente à de governador — se obtivesse mais da metade das cadeiras. Caso fique abaixo desse patamar, a polícia avalia que o partido poderá questionar a legitimidade da votação e alegar fraude.
Disputa eleitoral e risco de confrontos
Tino Chrupalla, colíder da AfD, afirmou que votos enviados pelo correio por idosos que vivem em casas de repouso teriam sido manipulados. A comissão eleitoral de Saxônia-Anhalt rejeitou a denúncia por falta de fundamento. Para as forças de segurança, porém, a acusação pode alimentar manifestações de apoiadores e favorecer a mobilização de grupos neonazistas violentos.
Ulrich Siegmund, principal candidato da AfD e nome cotado para o cargo de governador, declarou que respeitaria o resultado. Ao mesmo tempo, pediu que os militantes acompanhassem presencialmente os procedimentos de apuração. “Confiança é bom, mas controle é melhor”, disse.
A legislação estadual permite que eleitores estejam nas sessões de votação e de contagem, desde que não provoquem tumulto. A convocação feita por Siegmund aumentou a preocupação policial.
Campanhas apartidárias tentaram ampliar a circulação de informações sobre propostas controversas da AfD, entre elas a retirada de imigrantes dos serviços de saúde e intervenções ideológicas nas áreas de cultura e educação. Também houve mobilização em favor do voto estratégico no SPD e nos Verdes, com o objetivo de fazer as duas siglas ultrapassarem a cláusula de barreira de 5%.
A entrada de mais partidos no Parlamento reduziria as chances de a AfD formar uma maioria. Nas últimas semanas, as intenções de voto no SPD e nos Verdes cresceram, movimento que provocou novas críticas de integrantes da legenda de extrema direita.
A polícia também considera possível uma reação de grupos de extrema esquerda, que têm histórico de violência na Alemanha. Uma vitória da AfD poderia ainda levar às ruas movimentos sociais habituados a organizar contraprotestos em atos da extrema direita e em reuniões do partido.
Ao menos 22 eventos foram registrados e exigirão acompanhamento policial. Os preparativos começaram há dez meses e envolvem as forças disponíveis em Saxônia-Anhalt, além de reforços enviados por outras unidades da federação.
Suspeitas de sabotagem
A eleição ocorre em uma semana marcada por suspeitas de sabotagem e por um conflito diplomático aberto entre Alemanha e Rússia. Na terça-feira (1°), duas interferências foram registradas em instalações de energia. Em Munique, a polícia investiga uma tentativa de incêndio criminoso em um canteiro de obras da Rohde & Schwarz, fabricante de radares e equipamentos de detecção de drones. Um homem e uma mulher, ambos de nacionalidade búlgara, foram presos.
Na quinta-feira (3), uma mulher procurou a Polícia Federal no Aeroporto Willy Brandt, em Berlim, e afirmou que transportava substâncias perigosas na bagagem. Ela foi presa, enquanto o terminal principal permaneceu interditado por três horas, até a verificação do conteúdo.
O governo de Friedrich Merz anunciou medidas de retaliação contra a Rússia, responsabilizada pela presença de drones com explosivos no aeroporto de Leipzig. Os equipamentos haviam sido encontrados por acaso no começo de agosto. O Kremlin nega a acusação.
Observadores e políticos alemães classificam os episódios como ataques híbridos e levantam a hipótese de envolvimento de serviços de inteligência russos, acusados de tentar influenciar eleições na Europa. A AfD defende a reaproximação com Moscou, enquanto sua retórica alimenta receios de uma participação maior da Alemanha na guerra da Ucrânia.


