A Casa Argentina, residência universitária instalada na Cité Internationale Universitaire de Paris, tornou-se centro de denúncias sobre expulsões, restrições à convivência e reuniões privadas ligadas à extrema direita. A situação levou a Prefeitura de Paris a pedir, em 30 de julho, uma investigação ao ministro francês das Relações Exteriores, Jean-Noël Barrot, e pode ser discutida durante a visita do presidente argentino, Javier Milei, à França, prevista para o fim de setembro e início de outubro.
A residência é dirigida desde 2024 pelo advogado franco-argentino Santiago Muzio, nomeado pelo governo de Milei. Antes disso, Muzio comandava, desde 2020, a filial em Madri do Instituto de Ciências Sociais, Econômicas e Políticas (ISSEP), instituição privada fundada pela eurodeputada francesa de extrema direita Marion Maréchal, sobrinha de Marine Le Pen.
Moradores e diretores de outras residências descrevem um ambiente de medo e vigilância. Uma residente do ano letivo de 2025/2026 classificou a Casa como “uma miniditadura”. Segundo relatos, o acesso a áreas comuns, como a sala de convivência e a churrasqueira, foi restringido, e alguns residentes passaram a conversar aos sussurros por receio de retaliações. As pessoas ouvidas pediram anonimato.
Disputas sobre valores e memória
Uma das primeiras decisões de Muzio foi não assinar a Carta de Valores da Cité U, documento firmado anualmente pelos diretores das residências. A carta defende os direitos humanos e a vida privada e proíbe, entre outras práticas, a discriminação por gênero ou orientação sexual.
Laurent Schneider, presidente da conferência de diretores das residências, afirmou que a decisão abriu um precedente. Ao ser questionado, Muzio teria dito que não poderia assinar, em sã consciência, um documento que reconhecesse a igualdade de gênero e de orientação sexual. Uma fonte ligada à residência também relatou a retirada de cartazes em defesa dos direitos LGBTQIA+.
O conflito se agravou em fevereiro, quando uma placa em homenagem aos 30.000 desaparecidos e vítimas do Terrorismo de Estado (1974-1983) na Argentina foi retirada sob a justificativa de obras. Os moradores organizaram uma homenagem na Casa da Alemanha, e a fundação responsável pela Cité U instalou uma placa semelhante no campus.
Meses depois, 13 moradores que participaram da homenagem ou questionaram a retirada foram impedidos de permanecer na Casa durante as férias universitárias, como ocorria habitualmente. Salvador Calanni, então vice-presidente do comitê de moradores e um dos afetados, classificou a medida como perseguição política. Cerca de dez pessoas foram acolhidas por outras residências em julho e agosto.
Calanni, beneficiário da bolsa de pesquisa Marie Sklodowska-Curie, não conseguiu vaga para o ano letivo de 2026-2027 depois de um processo de seleção considerado controverso. A seleção ocorreu em agosto, embora tradicionalmente fosse realizada em maio e junho, antes do início das aulas, em setembro. Das 42 pessoas que não foram selecionadas, seis contestaram a decisão junto ao Ministério do Capital Humano argentino, alegando exclusão por uma decisão discricionária, e não por seus méritos.
Repercussão no campus
Criada em 1925, depois da Primeira Guerra Mundial, a Cité Internationale Universitaire de Paris recebe anualmente cerca de 12 mil estudantes, pesquisadores e artistas de 150 nacionalidades em suas 48 residências. A regra recomenda que 30% dos moradores de cada unidade sejam de outras nacionalidades, para estimular o intercâmbio conhecido como “brassage”.
Inaugurada em 1928, a Casa Argentina tem capacidade para cerca de 80 pessoas. Os moradores pagam atualmente entre 620 e 1.210 euros mensais, valores equivalentes a R$ 3.900 e R$ 7.600. O local já recebeu intelectuais como o escritor Julio Cortázar.
A tensão passou a preocupar outras administrações. Um diretor afirmou temer enviar moradores à Casa por meio do programa de intercâmbio e que eles se deparem com uma reunião da extrema direita. Em novembro, dois grupos de reflexão ligados à extrema direita na Polônia e na Hungria apresentaram ali o plano “O Grande Reset”, que propõe desmantelar a União Europeia ou reduzir seu alcance atual. Em maio, a residência sediou ainda um debate contrário à eutanásia na Europa.
A senadora franco-argentina Sophie Briante Guillemont questionou o governo, em março, sobre medidas para impedir o uso das instalações da Cité U em atividades alheias à missão universitária. Ela relacionou o caso às discussões sobre a chamada internacional reacionária e aos possíveis efeitos sobre a política francesa e europeia.
A França realizará sua eleição presidencial em abril e maio de 2027, com Marine Le Pen liderando as pesquisas e em meio a temores de interferência estrangeira. A situação da Casa está entre os motivos que levaram mais de 1.600 pessoas a pedir ao Conselho de Paris que declare Milei persona non grata. A Prefeitura esclareceu, porém, que apenas o Estado francês tem competência para adotar essa medida.
Limites institucionais
Barrot afirmou que o governo francês mantém conversas com as autoridades argentinas. Blandine Sorbe, delegada-geral da fundação que administra a Cité U, disse que trabalha para que o assunto seja tratado em nível diplomático durante a visita de Milei.
Segundo Sorbe, Muzio defende que as reuniões realizadas na Casa estão protegidas pela liberdade de expressão, são privadas e ocorrem em espaços alugados para arrecadar recursos. A fundação pretende reforçar seu marco ético para definir limites sobre atividades aceitáveis no campus.
Até agora, foram denunciados cerca de dez casos de discriminação, a maioria por opinião política e um por orientação sexual. Sorbe afirmou que não foram reunidos elementos suficientes para comprovar as denúncias segundo a legislação francesa.
A intervenção é dificultada pela estrutura administrativa da residência. A Casa Argentina depende diretamente do Ministério do Capital Humano argentino e, ao contrário de praticamente todas as outras unidades, não possui conselho de administração com representantes da Cité Universitaire. A Cité U tenta regularizar essa situação desde a década de 2010, mas considera o tema dependente de uma discussão bilateral e diplomática.
A Casa, Santiago Muzio e o Ministério do Capital Humano argentino não responderam às perguntas. Os ministérios franceses do Interior e do Ensino Superior também não se manifestaram.


