MADRI — A retirada de Maricarmen Abascal, de 87 anos, terminou com a aposentada sendo levada do sexto andar em uma maca, enquanto manifestantes tentavam impedir a entrada dos agentes no prédio. A operação ocorreu em 23 de setembro, depois de três tentativas anteriores, e mobilizou centenas de pessoas no bairro de Retiro, em Madri.
A polícia isolou parte da rua durante o despejo. Ativistas relataram agressões e uso de spray de pimenta, enquanto a Delegação do Governo afirmou que os agentes cumpriam uma ordem judicial. Entre os apoiadores que acompanharam o caso estavam o ator Carlos Bardem e a cantora Ana Belén.
A disputa pelo contrato
Maricarmen viveu por cerca de sete décadas no apartamento, que tem 92 m². O contrato de aluguel havia sido assinado pelo pai dela em 1956 e depois passou para a mãe. Em 2005, a locação foi registrada oficialmente em nome da aposentada.
A família pagava € 500 por mês, aproximadamente R$ 3 mil, conforme as condições do contrato antigo. Depois de uma mudança de proprietário, o valor chegou a € 2.650, cerca de R$ 15,6 mil. Posteriormente, caiu para € 1.650, quantia que ainda excedia em € 300 a aposentadoria mensal de Maricarmen, de € 1.350.
Ela continuou depositando os € 500 previstos no acordo original. A proprietária, por outro lado, sustentava que aquele contrato havia terminado. A disputa judicial se prolongou até a execução do despejo.
Tentativas e repercussão
Após a venda do edifício, Maricarmen recebeu, dois anos depois, uma proposta de compra do apartamento por € 247 mil, cerca de R$ 1,5 milhão. Ela afirmou não ter condições financeiras para adquirir o imóvel. Diferentes alternativas foram apresentadas antes da retirada, mas não impediram a execução da ordem.
Depois de deixar o prédio, a aposentada foi levada ao hospital Gregorio Marañón para avaliação médica e, em seguida, seguiu para a casa de familiares. Já hospitalizada, enviou uma mensagem aos manifestantes, pedindo coragem e que continuassem defendendo seus direitos.
O relator especial da ONU para o direito à moradia adequada, Koldo Casla, afirmou que o caso coloca a Espanha diante de questionamentos sobre suas obrigações internacionais nessa área. A expulsão também passou a ser associada aos protestos contra o aumento dos preços dos imóveis e dos aluguéis no país.


