Uberlândia, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
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Alex Flemming retorna ao Brasil e transforma ruínas em alerta sobre a civilização

Após 34 anos em Berlim, o artista retoma a vida no país e prepara novas obras, um ateliê em São Paulo e um livro de viagens.

Alex Flemming retorna ao Brasil e transforma ruínas em alerta sobre a civilização
Foto: Isabella Finholdt/Estadão

Depois de 34 anos em Berlim, o artista Alex Flemming voltou a viver no Brasil decidido a contribuir com a arte brasileira e a acompanhar de perto o país que deixou. Aos 72 anos, ele prepara um novo ateliê numa antiga agência bancária no Largo do Arouche e organiza o lançamento do livro Do Rio Tacutu ao Chuí, baseado numa viagem por terra pelo país.

Flemming nasceu em São Paulo, em agosto de 1954, filho de um piloto de aviões e de uma aeromoça. Estudou arquitetura na FAU-USP até 1976 e passou dois anos em Nova York, entre 1981 e 1983, com uma bolsa Fulbright no Pratt Institute. Sua trajetória também inclui períodos na Alemanha, onde se estabeleceu em Berlim em 1991.

A decisão de retornar ao Brasil foi associada pelo artista à idade e ao desejo de participar mais diretamente da vida brasileira. Ele também afirmou querer reencontrar um país em que as pessoas sorriem, respondem quando são abordadas e oferecem ajuda a desconhecidos. Na Alemanha, segundo Flemming, as relações cotidianas são mais ríspidas.

Rostos anônimos no espaço público

Duas de suas obras mais conhecidas estão em São Paulo. Na Estação Sumaré do metrô, inaugurada em 1998, 44 painéis de vidro exibem rostos brasileiros anônimos fotografados de frente, como em imagens de documentos. Sobre os retratos aparecem versos de poetas brasileiros, de José de Anchieta a Haroldo de Campos, em letras desencontradas que dificultam deliberadamente a leitura.

A obra nasceu de uma proposta que incorporava a arte à arquitetura da estação. Como o local tinha apenas superfícies de vidro, Flemming decidiu desenvolver uma técnica específica para a instalação. Com apoio da Santa Marina, a fotografia foi fundida ao vidro, e não aplicada como película. O artista afirma que a produção levou dez anos, período em que enfrentou mudanças na direção do metrô e precisou contar com patrocinadores alemães.

Em 2016, ele utilizou procedimento semelhante na fachada da Biblioteca Mário de Andrade. As imagens de funcionários e frequentadores da instituição foram aplicadas em vidro duplo e em três cores. Flemming diz que gostaria de realizar outras séries em edifícios públicos com grandes fachadas de vidro, retratando populações anônimas de diferentes cidades brasileiras.

“Apocalipse” e a destruição dos símbolos

A série Apocalipse começou em 2015, depois do ataque ao Bataclan, em Paris. Flemming passou a pintar monumentos emblemáticos do mundo em meio a explosões e ruínas. Para ele, a destruição dos edifícios representa um ataque à pluralidade cultural e à própria ideia de civilização.

Em agosto, 37 telas da série foram expostas em dois palacetes desativados havia mais de 80 anos na Rua Roberto Simonsen, no centro de São Paulo, perto da Sé. A mostra teve curadoria de Fábio Magalhães, não contou com patrocínio nem energia elétrica e ficou restrita às horas de luz natural. Em um domingo, 1.300 pessoas visitaram a exposição.

Entre os monumentos representados por Flemming está a Catedral de Notre-Dame. Em outra tela, a Sagrada Família, em Barcelona, aparece ameaçada pela destruição. O artista relaciona essas imagens à guerra e à devastação de cidades, mencionando Beirute, Gaza, a Ucrânia e Teerã.

“Só a arte salva”, afirma Flemming, ao defender a arte como instrumento de diálogo, compreensão e aceitação do outro. A frase resume a resposta que ele procura oferecer, por meio da pintura, ao avanço da intolerância e da violência.

Brasil, arquitetura e política

Formado em arquitetura, Flemming acompanha com preocupação as transformações urbanas de São Paulo. Ele não se opõe à construção de novos edifícios, mas critica a ausência de um plano urbanístico capaz de orientar o adensamento da cidade. Para o artista, bairros que não comportam o aumento da ocupação podem enfrentar problemas de circulação e perda de características originais.

Ele também questiona a flexibilização de regras para construções em áreas residenciais e próximas à trajetória do Aeroporto de Congonhas. Em sua avaliação, incorporadoras constroem, recorrem à Justiça, aguardam alguns anos e depois pagam multas para liberar edifícios que ultrapassariam limites anteriormente estabelecidos.

Flemming ainda demonstra preocupação com a ascensão do partido Alternative für Deutschland, o AfD, na Alemanha. Ele associa o crescimento da legenda à xenofobia e ao nacionalismo e considera a possibilidade de retirada do país da União Europeia um risco para a ideia de livre circulação no continente.

A volta ao Brasil também foi precedida por uma longa viagem. A partir de 2022, o artista percorreu o trajeto entre Macapá e Oiapoque, atravessou as três Guianas, entrou no Brasil pelo Rio Tacutu, em Roraima, e seguiu até o Chuí de ônibus. A jornada foi dividida em cinco etapas, realizadas enquanto ainda morava na Alemanha, e será transformada no livro Do Rio Tacutu ao Chuí.

O relato, segundo Flemming, combina amor e crítica ao país. Ele considera o fechamento de museus uma tragédia nacional porque, sem acesso a essas instituições, a população perde a oportunidade de conhecer a própria história e a própria cultura. Sua defesa do Brasil passa, assim, pela valorização da arte, da arquitetura, da memória e do contato com aquilo que é diferente.

Texto produzido pela Redação Olhar Plural com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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