SÃO PAULO — Romances ambientados em fazendas, ranchos e cidades pequenas começam a ganhar espaço no mercado editorial brasileiro. O subgênero, observado durante a Bienal do Livro de São Paulo, combina a figura do cowboy com convenções conhecidas da literatura romântica, como inimigos que se apaixonam, o contraste entre personagens ranzinzas e solares e a relação entre a protagonista e o melhor amigo do irmão.
Entre 4 e 13 de setembro, o Distrito Anhembi recebeu a Bienal, onde editoras apresentaram títulos associados a esse movimento. Entre os lançamentos e séries destacados estão Irmãos Griffith, da Universo dos Livros; Lembranças de Quando Te Amei, da HarperCollins; Lucky River Ranch, da Editora Planeta; e Rancho dos Wells, do Grupo Editorial Record.
Um cenário de proximidade
Embora ainda tenha menos força do que os romances de esporte, o subgênero vem despertando o interesse de selos voltados à literatura romântica e ao público jovem. A ambientação em comunidades do interior, marcada por relações próximas e contato com a natureza, é um dos elementos centrais dessas narrativas.
Frini Georgakopoulos, editora de aquisições da Arqueiro, afirmou que a editora identificou autoras com vendas expressivas no exterior e buscou histórias capazes de estabelecer conexão com seus leitores. Entre os nomes associados ao movimento está a canadense Elsie Silver, autora das séries Chestnut Springs e Rose Hill, publicadas no Brasil pela Arqueiro. Os direitos das duas séries foram comprados pela Netflix e pela Amazon, respectivamente.
Renata Moritz, editora da Paralela, do Grupo Companhia das Letras, responsável pela trilogia Rebel Blue, de Lyla Sage, disse que a escolha da autora não ocorreu apenas por causa da tendência. Para ela, pesaram a atmosfera dos livros, a química entre os personagens e a capacidade de manter o envolvimento do leitor.
Moritz também relaciona o interesse pelos cowboys à busca por vínculos em um período de relações pouco comprometidas, ansiedade e incertezas. Nesse contexto, o cowboy aparece como uma figura associada ao contato físico e a uma vida menos mediada pelo ambiente digital. A fazenda, o rancho e a cidade pequena criam, na avaliação de Georgakopoulos, condições para encontros mais íntimos, relações próximas e uma rotina de ritmo diferente.
Do cowboy durão ao parceiro cuidador
A imagem masculina dessas histórias também passou por mudanças. O cowboy contemporâneo se distancia do personagem solitário, dominador e individualista associado ao faroeste americano e aos comerciais de cigarro. Na leitura de Moritz, ele se tornou mais maduro, cuidador e protetor, preservando aspectos estéticos do arquétipo, mas incorporando uma ideia diferente de masculinidade.
Georgakopoulos afirma que esses personagens são construídos para reunir força física e disponibilidade emocional. Eles podem ser responsáveis por outras pessoas e funcionar como pilares de suas comunidades, mas também precisam ser observadores e cuidadores. Ao lado deles, as protagonistas não ocupam um papel secundário: buscam se reinventar, conquistar objetivos e construir relações, sem fazer do romance sua única realização.
A fisioterapeuta e leitora Letícia Vieira, de 27 anos, diferencia esse personagem do executivo ou milionário recorrente em outros romances. Para ela, o cowboy parece mais próximo da vida cotidiana, embora ainda carregue atributos como força, autoridade e segurança.
A mudança também aparece no modo como leitoras passaram a representar seus interesses amorosos. Segundo Georgakopoulos, elas buscam parceria e valorização. O cowboy contemporâneo é apresentado como seguro e protetor, sem a toxicidade atribuída a versões anteriores, e costuma atravessar uma transformação ao longo da trama.
A adaptação ao cenário brasileiro
O lançamento Lembranças de Quando Te Amei, de Paola Aleksandra, levou o tema para uma perspectiva brasileira. O livro fez sucesso na Bienal do Livro de 2026 e esteve entre os mais vendidos da Harlequin na quarta-feira, 9.
Para Aleksandra, o interesse dos leitores não está necessariamente ligado ao arquétipo do cowboy, mas à expectativa de encontrar uma história de amor bem construída e um homem que vive em uma fazenda e expressa seus sentimentos. A autora defende que escritores brasileiros não precisam reproduzir o imaginário do Velho Oeste americano.
Em vez disso, o gênero pode incorporar diferentes realidades rurais do país, como fazendas no interior de Santa Catarina ou de Goiás. A proposta desloca o foco da imitação de modelos estrangeiros para a construção de histórias ambientadas em experiências brasileiras.
Dyane Caldeira, fonoaudióloga de 31 anos, esteve na Bienal em busca do livro de Aleksandra e avaliou positivamente essa representação nacional. Para ela, a presença de cenários brasileiros exige uma desconstrução da associação automática entre esse tipo de romance e uma imagem americanizada do campo.


