A relação entre museus europeus e instituições latino-americanas precisa deixar de seguir uma lógica de tutela e avançar em direção à restituição, à escuta e ao trabalho conjunto, afirma Manuel Segade, diretor do Reina Sofía, em Madri. À frente do museu espanhol, ele defende uma revisão do papel das instituições culturais diante de comunidades historicamente excluídas e de uma Europa em transformação.
Segade esteve no Brasil a convite do Latitude, plataforma que promove a arte brasileira no exterior. Passou por São Paulo e pelo Rio de Janeiro para estabelecer vínculos entre o Reina Sofía e instituições brasileiras. O museu abriga o Guernica, obra de Picasso, e vem consolidando uma atuação associada à teoria decolonial.
Da coleção à revisão institucional
Segundo Segade, o Reina Sofía já havia direcionado parte de suas aquisições a artistas afro-brasileiros e indígenas. Agora, a instituição também procura examinar as próprias estruturas europeias. Um dos trabalhos envolve associações ciganas, chamadas a participar da revisão dos termos usados pelo museu para tratar da etnia, especialmente na representação de mulheres flamencas presentes em obras de Dalí e Picasso.
O diretor considera que essas imagens foram construídas a partir de uma perspectiva folclórica e exotizante. A proposta, afirma, é estabelecer com museus latino-americanos uma relação horizontal, sem que a instituição europeia se apresente como autoridade paternalista. O museu, em sua formulação, deve atuar como apoio a processos que já existem.
Essa mudança também responde à composição social de Madri. Segade afirma que, legalmente, um de cada sete habitantes da cidade é latino-americano. Ao incluir pessoas indocumentadas, calcula que esse grupo chegue a 30% da população. Mulheres, comunidades afrodescendentes e pessoas trans também reivindicam espaço, em um cenário que, para ele, impede que a Espanha continue sendo pensada como um país branco, heterossexual e de classe média.
A experiência diante da obra
Para aproximar o público, o diretor aposta na hospitalidade, na gratuidade e na valorização das formas populares de tradução da arte. O Reina Sofía oferece entrada gratuita todas as tardes, das sete às nove. A medida integra uma tentativa de fazer com que museus monumentais deixem de parecer repartições públicas afastadas de seus visitantes.
Segade também sustenta que a experiência física diante de uma obra não pode ser substituída pela observação em uma tela de celular. Estar no mesmo espaço que a pintura, diz, produz uma relação diferente daquela mediada por dispositivos digitais.
A história recente aproxima Espanha e Brasil, segundo o diretor. A ditadura brasileira terminou em 1985, enquanto o último golpe de Estado espanhol ocorreu em 1981. Essa proximidade cronológica teria marcado a produção artística espanhola, atravessada por uma modernidade interrompida pela ditadura e por um trauma que permanece na coleção do museu.
O passado e a atualização do Guernica
A presença do Guernica conduz a uma reflexão sobre a permanência das obras em contextos de guerra. Para Segade, não é a pintura que precisa ser atualizada a cada novo conflito: são as gerações que encontram nela novos sentidos. Em manifestações contra a guerra, pessoas levam partes reproduzidas da obra, entre elas a imagem de uma mãe com crianças mortas.
O espaço onde o quadro está hoje instalado também carrega uma marca histórica. Antes de receber a obra, as salas funcionaram por séculos como dependências de um hospital, inclusive para amputados que atendiam vítimas dos bombardeios de Madri durante a Guerra Civil, no período em que Picasso pintava o quadro.
A permanência do Guernica na Espanha está relacionada ainda à sua condição material. Uma restauração realizada nos anos 1950 aplicou cera às fissuras da pintura. Com o tempo, o material se fundiu ao óleo e começou a se desprender. Por isso, o quadro é mantido suspenso e afastado da parede, protegido de vibrações causadas por obras próximas.
Uma cópia perfeita, com as mesmas fissuras, pode viajar no lugar do original. Para Segade, uma obra de tamanha importância não deveria correr nem mesmo um risco mínimo.
Uma nova ala para a relação transatlântica
Em novembro de 2026, o Reina Sofía deve abrir um novo andar da coleção, com uma ala dedicada à relação transatlântica entre a América Latina e a Europa. O projeto terá presença significativa de arte brasileira e, segundo Segade, pretende se concentrar menos na prática de buscar obras na América Latina para exibi-las em Madri e mais na construção da própria relação entre os territórios.
A proposta resume a mudança defendida pelo diretor: o museu europeu não como centro que reúne e legitima produções de outras regiões, mas como instituição capaz de compartilhar responsabilidades, ouvir diferentes públicos e rever as formas pelas quais a história da arte é contada.


