Uberlândia, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
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Cultura

Quando a inteligência artificial passa a interpretar a própria inteligência artificial

A restrição da Amazon a livros produzidos por IA abre uma discussão sobre os limites, os interesses e os riscos da tecnologia.

Quando a inteligência artificial passa a interpretar a própria inteligência artificial

A Amazon limitou a três livros por dia, por autor, as publicações em sua plataforma de autopublicação KDP. A medida foi associada à avalanche de obras produzidas por inteligência artificial, em um mercado que passou a receber textos feitos por sistemas não humanos. A restrição expõe uma questão que vai além da quantidade de livros disponíveis: até que ponto uma inteligência artificial pode interpretar, recomendar e avaliar a própria tecnologia que a produziu?

A pergunta surgiu a partir de uma conversa com Claude, sistema desenvolvido pela Anthropic. Ao ser questionado sobre quais seriam os cinco livros capazes de tornar alguém mais inteligente, o sistema recusou a ideia de uma lista universal e relacionou inteligência a diferentes dimensões, como raciocínio, criatividade, autoconhecimento e tomada de decisão. Em seguida, indicou Rápido e Devagar, de Daniel Kahneman; A Lógica do Cisne Negro, de Nassim Nicholas Taleb; Sapiens, de Yuval Noah Harari; Meditações, de Marco Aurélio; e Como Ler Livros, de Mortimer Adler.

As escolhas de Claude

A lista foi submetida a novas perguntas. Por que recomendar Meditações, de Marco Aurélio, em vez dos fundadores do estoicismo? Claude respondeu que Zenão de Cítio, Cleantes e Crisipo, ligados à origem da escola na Grécia do terceiro século a.C., deixaram poucos escritos preservados. Restaram fragmentos, citações indiretas e resumos de autores posteriores. Por isso, a indicação recaiu sobre autores greco-romanos cujas obras sobreviveram de forma mais completa, como Epicteto e Sêneca.

Também houve uma comparação entre Sapiens e Nexus, ambos de Harari. A justificativa foi que o primeiro seria mais amplo, já teria sido mais assimilado e ocuparia uma posição fundacional no pensamento do autor. Ao tratar de Nexus, Claude mencionou críticas à possível simplificação da inteligência artificial e à fragilidade de algumas analogias históricas. A resposta preservou a possibilidade de substituir um livro pelo outro para quem já conhecesse a obra de Harari.

A escolha seguinte tornou a conversa mais reveladora. Ao ser questionado sobre qual seria o livro mais favorável à inteligência artificial, Claude indicou Machines of Loving Grace, ensaio de Dario Amodei, CEO da Anthropic. Publicado em 2024, o texto foi apresentado como uma leitura relevante pelo contraste com o tom apocalíptico dominante. A indicação, porém, levanta uma dúvida inevitável: seria coincidência que o livro mais simpático à IA viesse justamente de uma das figuras centrais da empresa responsável pelo sistema?

Entre promessa e risco

O mercado de inteligência artificial generativa cresceu rapidamente em 2024, com investimentos globais que ultrapassaram dezenas de bilhões de dólares. Projeções da Bloomberg Intelligence e da McKinsey estimaram impacto econômico anual entre 2,6 e 4,4 trilhões de dólares até o início da próxima década. A escala alimenta uma incerteza: trata-se de uma bolha ou de um novo horizonte?

A pergunta inaugural foi formulada por Alan Turing no artigo Computing Machinery and Intelligence, de 1950: “Podem as máquinas pensar?” Mais de sete décadas depois, a questão permanece, mas o cenário se transformou. Geoffrey Hinton, vencedor do Prêmio Nobel de Física em 2024 e considerado um dos pais da IA moderna, deixou o Google em 2023 e passou a alertar publicamente para os riscos existenciais da tecnologia que ajudou a desenvolver.

Nick Bostrom, em Superinteligência, de 2014, deslocou o foco do aumento da capacidade das máquinas para o alinhamento entre os objetivos delas e os objetivos humanos. Stuart Russell, autor de Artificial Intelligence: A Modern Approach, resume o problema da seguinte maneira: “Construímos máquinas que são otimizadoras; o problema é o que pedimos que elas otimizem”.

A inteligência que nos conhece

O filme Her, dirigido por Spike Jonze em 2013, imagina Theodore, interpretado por Joaquin Phoenix, apaixonado por uma inteligência artificial apresentada por uma voz feminina. A hipótese parece menos distante quando se considera que sistemas de IA já conversam entre si e que existem redes sociais formadas apenas por essas entidades.

O passo seguinte imaginado é a incorporação dessa inteligência em robôs antropomorfos. Uma máquina poderia ser programada para oferecer, com precisão, aquilo que cada pessoa deseja encontrar em um amigo, amante, pai ou mãe. O mito de Pigmalião, nas Metamorfoses de Ovídio, já narrava a paixão por uma figura idealizada. Em Frankenstein, de 1818, Mary Shelley refletiu sobre a criação de vida sem responsabilidade.

A combinação entre robótica e inteligência artificial pode representar uma ruptura maior do que as revoluções anteriores. Se mensagens rasas já competem com a atenção de quem dirige, uma tecnologia capaz de abraçar, conversar e oferecer companhia de acordo com desejos individuais ampliaria radicalmente esse poder de atração.

O resultado permanece aberto entre libertação e aprisionamento. A inteligência artificial pode se tornar uma das forças mais poderosas já concebidas, mas a questão inicial continua válida também quando a própria IA responde: quem tem autoridade para interpretar essa tecnologia, e quais interesses aparecem nas respostas que ela oferece?

Texto produzido pela Redação Olhar Plural com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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