SÃO PAULO — A Assouline, editora de livros de arte, moda, design e viagem, inaugura sua primeira butique no Brasil, no shopping Cidade Jardim, em São Paulo. A chegada ocorre depois de anos de uma clientela brasileira construída à distância e amplia a presença internacional da empresa, fundada em Paris, em 1994, por Martine Assouline e o marido, Prosper.
A história da família ajuda a explicar a relação de Martine com os livros e com a ideia de humanidade. Seu avô dirigia um dos principais jornais do sul da França e, durante a Segunda Guerra, recusou-se a publicar artigos favoráveis à Alemanha. Preso e deportado para um campo de concentração, morreu no local. Para Martine, ele é um modelo de humanidade.
Do porão às butiques
A editora começou no porão do apartamento do casal, sem dinheiro e sem respaldo institucional. O projeto nasceu da troca de ideias sobre assuntos que lhes pareciam interessantes e fora do óbvio. Os primeiros títulos foram dedicados à moda, com nomes como Chanel, Dior e Azzedine Alaïa, e pensados para escolas que precisavam de referências visuais acessíveis.
A lógica permaneceu: a imagem atrai, a legenda conduz e o texto aprofunda. Martine afirma que se tornou uma pessoa de imagens porque leu muito ao longo da vida. Para ela, uma fotografia não funciona apenas como ilustração. A combinação entre imagens, citações e textos produz sentidos diferentes, capazes de reunir palavras e sentimentos.
Esse trabalho envolve a busca cuidadosa pela imagem adequada. Quando os arquivos disponíveis não bastam, a editora contrata fotógrafos específicos. A escolha visual também está no centro de um próximo projeto sobre catolicismo, judaísmo, islã e budismo tibetano. As capas serão assinadas por Prosper e inspiradas na obra de Lucio Fontana. A proposta é abordar as religiões por seus símbolos, festas, gestos e tradições, e não pela ideologia.
Para Martine, a curadoria depende de uma percepção pessoal. Ela só desenvolve um livro quando sente que há algo a dizer. A mesma exigência vale para marcas que procuram a Assouline em busca de um olhar sobre seus produtos ou universos.
Uma parceria com o grupo LVMH
A aproximação com o grupo LVMH começou a partir de um livro sobre os 60 anos da Dior, uma marca do conglomerado e um dos trabalhos de que Martine mais gosta. Sidney Toledano levou o volume a Bernard Arnault, e a conversa entre eles, em 2013, deu início à parceria que permanece até hoje. Segundo Martine, o grupo permitiu que os Assouline mantivessem sua autonomia e ofereceu apoio para a abertura de lojas em outros países.
A empresa mantém butiques em Nova York, Londres, Paris, Dubai e Mônaco. A unidade de São Paulo se estende até uma biblioteca contígua, com prateleiras, acessórios e objetos escolhidos pela Assouline. O espaço inclui também sapatos, bolsas e itens de beleza. A proposta, diz Martine, não é oferecer apenas livros, mas um ambiente inteiro.
Diante do avanço da inteligência artificial e do metaverso, ela não vê o livro físico como uma forma ultrapassada. “Quanto mais avançamos em direção à IA e ao metaverso, mais precisamos de coisas tangíveis”, afirma. Para Martine, o futuro exige equilíbrio entre aquilo que chega e os objetos que ainda podem ser segurados pelas mãos.


