SÃO PAULO — A exposição Traçando Verissimo – O mundo fabuloso do mestre do humor reúne mais de 300 itens da trajetória de Luis Fernando Verissimo no Centro Cultural Fiesp, na Avenida Paulista. Em cartaz pouco mais de um ano após a morte do escritor e no ano em que ele celebraria seu novenário, a mostra percorre sua produção literária, seus desenhos, a relação com o cinema, a paixão pelo jazz e aspectos da vida familiar.
Com curadoria da jornalista e editora Isa Pessoa, que trabalhou por mais de 15 anos com Verissimo na Editora Objetiva, a exposição apresenta manuscritos, fotografias, documentos e objetos pessoais. Parte significativa do material é exibida ao público pela primeira vez. A proposta, segundo Isa, é reconstituir os diferentes universos criativos do autor, que também tocava saxofone e acompanhava o cinema com interesse.
Entre os objetos estão o instrumento musical do escritor e seu último desenho, produzido depois do AVC sofrido em janeiro de 2021. A imagem, formada por cores e traços abstratos que saem da cabeça de uma figura, tornou-se a capa do livro Crônicas de Domingo. O acervo foi preservado pela família de Verissimo e pela Unisinos, em Porto Alegre.
Família, desenhos e personagens
A mostra reúne cartões de aniversário feitos à mão para Fernanda, Mariana e Pedro. Em cada convite, Verissimo desenhava uma situação relacionada à possibilidade de chuva, ao lado da indicação: “Festa! Sábado/30. Horas: 18:30. Se não chover”. Fotografias do casamento com Lucia também fazem parte do percurso.
A relação com o pai, o escritor Érico Verissimo, aparece em um depoimento apresentado cenograficamente a partir de uma grande página de máquina de escrever. Luis Fernando contou que gostava de observar o pai trabalhando no romance O Tempo e o Vento. Em 1947, aos 11 anos, lia os trechos antes da publicação.
A série As Cobras, criada para o jornal Zero Hora nos anos 1970, ocupa posição central na exposição. Além dos desenhos originais, dois bonecos de tecido e espuma representam as serpentes que discutiam temas existenciais e futebol. Charges políticas e trabalhos ligados à corrupção e a escândalos completam esse núcleo.
Política, jazz e televisão
A produção política de Verissimo é apresentada também por textos publicados em janeiro de 2021, quando o AVC afetou uma parte cognitiva de seu cérebro. Em A Caixinha, ele abordou a invasão do Congresso americano por apoiadores do presidente Donald Trump. Já Americanamente recuperou lembranças do período em que estudou em Washington e frequentava o departamento de revistas estrangeiras do Congresso.
A fase americana aparece ainda em uma estante com dezenas de discos de jazz. Verissimo conheceu o gênero aos 17 anos, em Nova York, no bar Village Vanguard. A coleção inclui LPs de Charlie Parker, John Coltrane, Gerry Mulligan, Chet Baker e Miles Davis. O visitante pode ouvir uma seleção dessas músicas sentado em uma réplica da poltrona do escritor.
O cinema ganhou uma minissala, onde é exibido um compilado de entrevistas e o documentário Luis Fernando Verissimo – O Filme (2026), dirigido por Luzimar Stricher. A televisão está representada por programas como TV Pirata e A Comédia da Vida Privada, atrações que ampliaram o alcance de sua obra.
A exposição também apresenta uma área dedicada à tirinha As Aventuras da Família Brasil e o divã do Analista de Bagé. Para o público infantil, Verissimo aparece como boneco sentado em uma carteira escolar, com um avião de papel, em referência à série Comédias para Ler na Escola. Um assento vazio permite que crianças e adultos se sentem ao lado dele.
Um legado em circulação
Isa Pessoa define Verissimo como um escritor de poucas palavras na vida cotidiana, mas de ampla produção no papel. A mostra inclui um vídeo em que a atriz Patricia Pillar lê textos de As Mentiras que os Homens Contam, coletânea organizada a partir de um projeto desenvolvido pelos dois.
A curadora também recorda uma conversa sobre uma possível coletânea dedicada ao sexo. Na ocasião, Verissimo teria perguntado se, além de escrever sobre mentiras, ele seria considerado bom no tema e em que mais.
Ao reunir materiais de diferentes períodos, Traçando Verissimo procura aproximar novas gerações da obra do escritor. A exposição apresenta a escrita, o desenho, os personagens, a música e as lembranças pessoais como partes de um mesmo percurso, preservando a dimensão múltipla do autor que desejava não morrer nunca.


