BELO HORIZONTE — Dois documentários chilenos apresentados no CineBH colocam a política no centro da narrativa por caminhos distintos. La Vida que Vendrá, de Karin Cuyul, revisita as promessas e as frustrações da redemocratização após a ditadura de Augusto Pinochet. Já Si Vás para Chile, dirigido por Amilcar Infante e Sebastián González Méndez, acompanha a presença de migrantes venezuelanos no norte do país e as reações provocadas por ela.
Em Si Vás para Chile, o título retoma uma canção popular associada à hospitalidade dos chilenos, mas aparece no filme com sentido irônico. As imagens registram que os migrantes não encontram acolhimento cordial. Em uma das cenas, “patriotas” chilenos destroem um acampamento ocupado por venezuelanos. Uma mulher intervém e afirma: “Sou também chilena, mas vamos respeitar as crianças que estão aí!”.
O documentário se concentra nos acampamentos de Iquique e Alto Hospício, onde há concentração de migrantes venezuelanos. A produção acompanha as reações negativas de moradores que se sentem invadidos pela presença estrangeira e relaciona esse episódio a deslocamentos humanos provocados por guerras, fome e perseguições políticas. O fenômeno também aparece como elemento da disputa política em diferentes regiões, inclusive na propaganda de candidatos de extrema-direita na Europa.
Memória e impasses políticos
La Vida que Vendrá começa com a exumação do corpo de Salvador Allende, morto no dia 11 de setembro de 1973, durante o golpe que encerrou seu governo e instaurou uma ditadura no Chile. A partir desse episódio, Karin Cuyul percorre a resistência ao regime, as expectativas associadas ao plebiscito que poderia encerrá-lo e as decepções posteriores.
O filme também examina o retorno da extrema-direita ao poder por meio do voto popular. A trajetória inclui a rejeição de uma constituição progressista por uma maioria de chilenos e a eleição de José Antonio Kast para a Presidência.
Mesmo diante desse movimento histórico, a documentarista preserva uma perspectiva de esperança, associada à disposição da esquerda chilena de defender seus ideais nas ruas. O percurso apresentado, porém, não oferece garantias de que a História caminhe na direção esperada.


