Filmes brasileiros de ficção científica realizados entre o início dos anos 1960 e o fim da década seguinte voltam a ser examinados como representações das tensões políticas do país. Produções como O Quinto Poder, O Homem que Comprou o Mundo e Manhã Cinzenta combinaram espionagem, tecnologia e distopia para abordar propaganda, Guerra Fria, autoritarismo e dependência externa.
Lançado em 1962, O Quinto Poder foi dirigido pelo italiano Alberto Pieralisi, com roteiro de Carlos Pedregal e produção da Pedregal Filmes. A história apresenta agentes estrangeiros infiltrados no Brasil, responsáveis por irradiar mensagens subliminares pelas redes de rádio e televisão. A intenção seria levar a população à violência e ao clamor por uma revolução.
A trama dialogava com o temor da propaganda subliminar, difundido após um experimento associado a James Vicary nos Estados Unidos. Durante exibições de Férias de Amor, de Joshua Logan, anúncios com as frases “coma pipocas” e “beba Coca-Cola” teriam sido projetados 12 vezes por minuto, em mensagens com duração inferior a três milésimos de segundo. Reavaliações posteriores colocaram em dúvida os resultados atribuídos ao experimento.
No filme, a disputa política também aparece em cenários como o bondinho do Pão de Açúcar e o Corcovado, diante do Cristo Redentor. A obra chegou a ser interpretada como uma antecipação do golpe militar de 1964. Em uma leitura contemporânea, a estrutura de uma potência estrangeira que instrumentaliza meios de comunicação e financia atores locais é aproximada do vocabulário da guerra híbrida.
Distopia, censura e dependência
A análise relaciona esse cinema ao conceito de “alegoria do subdesenvolvimento”, formulado por Ismail Xavier no livro Alegorias do Subdesenvolvimento, de 1993. Nessa perspectiva, a ficção científica teria permitido abordar, por meio de códigos, conflitos que não podiam ser expostos diretamente em um período de censura.
Walter Lima Jr. dirigiu Brasil ano 2000, de 1969, sobre um país ainda governado por militares depois de uma hipotética guerra nuclear. O filme é apresentado como parte de uma produção que recorria ao gênero para tratar da tensão entre modernização e arcaísmo, desenvolvimento e dependência externa.
Em O Homem que Comprou o Mundo, de 1968, Eduardo Coutinho acompanha um homem comum envolvido contra a própria vontade em uma trama internacional ambientada durante a Guerra Fria. A combinação de espionagem, ficção científica e comédia coloca esse personagem diante de um jogo geopolítico que o ultrapassa, mas cujas consequências recaem sobre ele.
Já o curta-metragem Manhã Cinzenta, de Olney São Paulo, realizado em 1969, imagina um futuro no qual a ditadura militar utiliza robôs e inteligência artificial para julgar e reprimir jovens rebelados. A produção teve bastidores marcados pela prisão de seu realizador.
O mesmo recurso de tratar conflitos políticos por meio da ficção científica aparece em Parada 88: O Limite de Alerta, de José de Anchieta, lançado em 1978, e em Abrigo Nuclear, de Roberto Pires, de 1981. Essas obras são relacionadas a um cinema que expressava, de forma indireta, a fragilidade das instituições e os efeitos da dependência externa.
Filmes revisitados no debate atual
O interesse renovado por esses títulos é associado ao cenário de ataques ao Supremo Tribunal Federal, à aproximação das eleições de 2026 e ao debate sobre desinformação organizada. A leitura também menciona indícios de financiamento estrangeiro a institutos, juristas e políticos interessados na manutenção do Brasil como país subalterno, atribuindo esse financiamento aos Estados Unidos.
A proposta não é afirmar que os cineastas tenham previsto especificamente a conjuntura de 2026. O argumento é que a ficção científica brasileira funcionaria como um barômetro das ansiedades nacionais em períodos de tensão, sobretudo diante da modernização, da emancipação, da dependência externa e da fragilidade institucional.
Nesse enquadramento, O Quinto Poder deixa de ser apenas um filme pouco lembrado da produção brasileira. Sua narrativa sobre propaganda, interferência estrangeira e instabilidade política é lida como uma alegoria que atravessa diferentes momentos do país, do golpe militar de 1964 ao debate contemporâneo sobre soberania e instituições.


