PICUÍ — Em Yellow Cake, um experimento internacional criado para esterilizar mosquitos transmissores da dengue sai do controle e transforma uma região do sertão paraibano em cenário de uma ameaça radioativa. O filme de ficção científica dirigido por Tiago Melo combina debates sobre pesquisa científica, interesses políticos e conflitos éticos, mas não consegue desenvolver essas possibilidades com a mesma força com que as apresenta.
A história acompanha Rúbia (Rejane Faria), física nuclear envolvida na operação. Para viabilizar o projeto, os cientistas procuram urânio na região de Picuí, onde a pesquisa é conduzida em meio a disputas políticas e dilemas morais. Quando o experimento fracassa, os mosquitos radioativos passam a ser alvo de uma operação de extermínio.
Ideias que não avançam
A trama começa com o projeto já em andamento e exige que suas regras sejam explicadas ao público. A apresentação direta dos personagens e o excesso de atenção à composição visual acabam enfraquecendo a compreensão dos conflitos. Pela perspectiva de Rúbia, a narrativa percorre a região, seus moradores e seus mistérios, mas sem aprofundá-los.
O filme se aproxima do tom de Arquivo-X ao inserir o peculiar em uma moldura de ficção científica. Também recorre ao humor ligado à regionalidade e alterna momentos em português e em outro idioma. A proposta visual tem elementos interessantes, mas os planos são finalizados de maneira inconsistente, o que faz a produção depender da própria ousadia para produzir impacto.
A montagem e a edição estão entre os principais obstáculos. Os cortes entre as cenas são confusos e dificultam a conexão entre os acontecimentos, como se as partes da história permanecessem separadas. A ausência de explicações técnicas excessivas não resolve esse problema: mesmo sem um vocabulário científico carregado, o encadeamento narrativo exige esforço para ser acompanhado.
Ao explorar a energia nuclear como ponto de partida para o fantástico, Yellow Cake reúne temas com potencial dramático, mas os desenvolve de modo limitado. O longa-metragem deve chegar em breve aos cinemas brasileiros e deixa, em muitos momentos, a sensação de que suas ideias não encontraram uma forma capaz de conduzir a história com clareza.


