MOSCOU — A possibilidade de uma nova mobilização militar passou a orientar decisões pessoais na Rússia, mesmo depois de o Kremlin negar que esteja preparando uma convocação. Em meio aos rumores, alguns russos deixaram o país, enquanto outros tentam proteger sua liberdade de circulação, suas contas bancárias e sua situação legal.
Eradzh, empresário de 36 anos, pediu a um assistente de inteligência artificial que examinasse as notícias e estimasse a chance de uma nova convocação. O resultado o convenceu a procurar uma passagem barata para o exterior. Dentro de uma semana, ele pretende viajar para o Chipre e permanecer pelo menos dois meses longe de Moscou.
A avaliação de Eradzh parte da percepção de que a Rússia tem enviado dezenas de milhares de voluntários para a guerra na Ucrânia, atraídos por pagamentos elevados, sem obter avanços territoriais expressivos. Para ele, o recrutamento voluntário pode não ser suficiente, enquanto as negociações não produziram resultados e Vladimir Putin continua determinado a manter sua posição.
Negativas do Kremlin não dissipam o temor
Os rumores de uma segunda onda de convocação, após a mobilização iniciada em setembro de 2022, circulam há meses em redes de informação online e são discutidos em cafés, trens e áreas próximas a escritórios. A expectativa de que novas medidas pudessem ser tomadas depois das eleições parlamentares de 20 de setembro ampliou a apreensão.
Na quarta-feira (2), Putin classificou os relatos como “completa bobagem” e um “ataque de informação contra a Rússia”. No dia seguinte, reiterou que o país dispunha de tropas suficientes e afirmou que não havia cenário que exigisse uma mobilização.
As declarações, porém, não convenceram parte da população. Russos entrevistados lembraram que, em 2022, o Kremlin havia negado que invadiria a Ucrânia e que realizaria uma nova onda de convocação naquele setembro. Também mencionaram relatos de métodos de recrutamento mais duros na região de Penza e o fato de o decreto que determinou a mobilização de 2022 continuar em vigor.
A preocupação foi reforçada por avaliações de autoridades de inteligência ocidentais, citadas em relatos da imprensa internacional, segundo as quais a Rússia estaria perdendo mais soldados do que consegue recrutar. Em agosto, Volodimir Zelenski afirmou que Moscou planejava convocar 300 mil pessoas depois das eleições parlamentares. O presidente ucraniano havia feito previsão semelhante em abril de 2024.
Diferenças em relação a 2022
A primeira grande mobilização forçada levou centenas de milhares de homens a deixar a Rússia. O impacto social foi tão forte que as autoridades interromperam o processo em questão de semanas. Naquele momento, analistas militares avaliaram que a medida buscava recompor um Exército russo perto do colapso na Ucrânia, depois de perdas territoriais no leste e no sul do país.
Dmitri Kuznets, analista militar, considera que a situação atual na linha de frente é diferente. Com base em dados do orçamento russo, de bancos de dados de cartórios e de obituários, ele afirma que a Rússia ainda estaria recrutando mais pessoas do que perde no campo de batalha. Também avalia que o Estado não teria recursos para pagar os convocados em uma operação de grande escala.
Para Kuznets, uma nova convocação poderia criar unidades militares, mas o possível benefício seria menor que o risco de provocar uma revolta popular contra o Kremlin. A decisão, no entanto, permaneceria concentrada nas mãos de Putin.
Saídas individuais e incerteza
Alexander, instrutor de academia de 36 anos em Moscou, decidiu viajar para a Tailândia com a mulher, que também trabalha como instrutora. Ex-integrante de uma unidade especial das Forças Armadas, ele considera elevado o risco de ser convocado. A mulher, segundo ele, chorou diante da possibilidade de que ele perdesse a vida na Rússia.
Ilia, engenheiro de 26 anos, deixou o país depois que o Yabloko, único partido que concorria com uma plataforma favorável à paz, foi retirado da disputa eleitoral. Ele também citou a escassez de gasolina causada por ataques ucranianos e relatos de maior assédio a viajantes na fronteira.
“Você não sabe o que as autoridades podem fazer para limitar sua liberdade de movimento e seus esforços para se manter vivo e bem”, disse Ilia.
Nem todos conseguem pagar para sair. Alguns tentam obter residência oficial em Moscou, considerada por muitos uma forma de proteção contra a convocação. Outros sacaram dinheiro das contas bancárias por medo de bloqueios caso recebam uma convocação online e não compareçam ao posto de alistamento.
Mikhail, que trabalha na indústria cinematográfica e tem 40 anos, procurou um psiquiatra depois de ser exposto a uma sucessão de relatos sobre a possível mobilização. “Estou tentando me tirar desse campo de rumores e especulações e voltar para algo que eu realmente sei”, afirmou.
A digitalização do recrutamento também alimenta a percepção de que uma nova convocação seria mais difícil de evitar. As ordens de comparecimento passaram a ser entregues eletronicamente. O descumprimento pode resultar em proibição automática de deixar o país, suspensão da carteira de motorista e restrição ao direito de fazer transações imobiliárias.
Grigori Sverdlin, fundador do grupo Idite Lesom, que auxilia russos a evitar o serviço militar obrigatório, afirmou que o sistema de penalidades ainda não funciona plenamente por causa de falhas técnicas e da falta de coordenação entre órgãos públicos.
Konstantin, instrutor de iatismo em São Petersburgo, permaneceu fora da Rússia durante a mobilização de 2022 e agora pretende continuar no exterior. Segundo ele, muitos amigos gastaram dinheiro e tentaram obter cidadania em outros países naquela ocasião, mas acabaram retornando.


