A Igreja Ortodoxa Russa iniciou na terça-feira, 9, uma peregrinação militar com fragmentos atribuídos ao príncipe Demétrio Donskoi. Os restos mortais serão apresentados a soldados russos ao longo da linha de frente na Ucrânia, em um percurso superior a mil quilômetros. A iniciativa ocorre no quinto ano do conflito e integra o apoio religioso ao esforço de guerra conduzido pelo governo de Vladimir Putin.
Donskoi morreu em 1389 e se tornou uma figura associada a vitórias militares russas depois de comandar a derrota da Horda Dourada mongol na Batalha de Kulikovo. Canonizado em 1988, o príncipe passou a ser mobilizado como referência por setores nacionalistas do país.
Relíquias na frente de batalha
Os fragmentos levados aos militares pertencem à mão direita do guerreiro. Eles foram retirados de seu sarcófago, aberto neste ano durante obras de restauração na Catedral do Arcanjo, dentro do Kremlin, em Moscou. Em agosto, Putin acompanhou o exame dos restos, descritos por especialistas como preservados.
Guardados em um relicário ornamentado sob vidro reforçado, os fragmentos chegaram inicialmente ao memorial de guerra de Saur-Mogila, na região de Donetsk. Moscou afirma ter anexado o território em 2022, embora o ato não seja reconhecido por Kiev. No local, integrantes do alto clero ortodoxo realizaram uma cerimônia ao lado de representantes das Forças Armadas russas.
Em comunicado, a Igreja afirmou que o príncipe poderia “invisivelmente, ocupar seu lugar nas mesmas fileiras de batalha que nossos defensores”. Comandantes militares apresentaram as relíquias como sinal de que a divindade estaria ao lado das tropas russas.
Críticas dentro da tradição ortodoxa
A Igreja Ortodoxa Russa mantém envolvimento direto com o esforço bélico desde o início da invasão, em fevereiro de 2022. Padres foram enviados a unidades militares e áreas ocupadas, enquanto templos russos passaram a realizar orações pela vitória nas frentes de batalha.
A peregrinação também provocou questionamentos entre setores da própria tradição ortodoxa. As críticas se concentram na ruptura de protocolos religiosos, já que o túmulo de Donskoi era conhecido havia décadas sem ter sido exumado antes da atual fase do conflito.
O padre e historiador Alexander Zanemonets, que vive fora da Rússia, avaliou que a recuperação da imagem de Donskoi atende às demandas patrióticas do período de guerra. Na interpretação dele, a figura do príncipe como defensor do território reforça a narrativa do Kremlin de que a Rússia conduz uma guerra defensiva, e não uma ofensiva contra o país vizinho.


