Uberlândia, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
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Zelito Viana transforma arquivo de Marília Pêra em documentário narrado por ela

Viva Marília reúne cerca de 80 horas de registros para reconstruir a trajetória da atriz com sua própria voz e sem depoimentos atuais.

Zelito Viana transforma arquivo de Marília Pêra em documentário narrado por ela
Foto: Divulgação

Marília Pêra não queria ser homenageada nem tinha interesse em ver sua trajetória transformada em biografia. Ainda assim, é a própria atriz quem conduz Viva Marília, documentário dirigido por Zelito Viana e lançado nos cinemas na última quinta-feira, 10. A produção foi construída a partir de entrevistas, cenas de filmes, novelas, espetáculos, programas de televisão, fotografias e outros registros de arquivo.

A decisão de deixar Marília no centro da narrativa surgiu da quantidade de material disponível. Cerca de 80 horas de conteúdo audiovisual foram analisadas durante a montagem, em um processo que levou o diretor a selecionar imagens capazes de apresentar a artista em primeira pessoa, sem depoimentos atuais de pessoas falando sobre ela.

Uma amizade que começou no cinema

A relação entre Zelito e Marília começou antes da existência do documentário. Em 1968, ele a contratou para O Homem que Comprou o Mundo, filme dirigido por Eduardo Coutinho e produzido por Zelito. Foi a primeira experiência da atriz no cinema, em um elenco formado em grande parte por profissionais vindos do teatro.

Segundo o diretor, Marília ainda estava descobrindo as particularidades da atuação diante das câmeras. Ela própria considerava que não sabia exatamente o que estava fazendo, assim como outros integrantes do elenco. A experiência, no entanto, marcou o início de uma relação de amizade e trabalho que se estenderia por décadas.

Em 2000, depois de uma sessão de Villa-Lobos - Uma Vida de Paixão, longa dirigido por Zelito, Marília lhe deu carta branca para realizar um projeto com ela. A conversa ocorreu durante a pré-estreia no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. A atriz morreu em 2015, e o cineasta só utilizou a autorização mais tarde, quando ela já não estava viva.

A proposta do documentário partiu de Sandra Pêra, irmã de Marília. Inicialmente concebido como uma homenagem, o filme encontrou nos arquivos da atriz uma maneira de evitar que outras pessoas interpretassem sua trajetória. Para Zelito, as próprias entrevistas de Marília ofereciam material suficiente para que ela dissesse quem era.

Arquivos, cortes e descobertas

Nelson Motta, ex-marido da atriz e roteirista do documentário, participou da escolha dos momentos apresentados. A convivência entre os dois e sua experiência no show business contribuíram para a seleção de passagens consideradas relevantes. Marília e Nelson tiveram duas filhas, Esperança e Nina.

A quantidade de material também criou dificuldades na montagem. Zelito afirma que precisou retirar cenas de que gostava, inclusive trechos dramáticos e mais fortes. Entre eles estava uma passagem de Brincando em Cima Daquilo, espetáculo de 1984 no qual Marília interpretava uma mulher que relatava ter sido vítima de estupro. Embora reconhecesse a força da cena, o diretor entendeu que ela não correspondia ao tom escolhido para o filme.

Outro conjunto de imagens veio do arquivo de Manuel Pêra, pai da atriz. Filmados em 16 mm, os registros foram restaurados pela equipe da Mapa Filmes, produtora fundada por Zelito ao lado de Glauber Rocha, Walter Lima Jr., Paulo Cezar Saraceni e Raymundo Wanderley Reis. O acervo também revelou uma propaganda antiga de liquidificador protagonizada por Marília, desconhecida até mesmo por pessoas próximas a ela.

Para Zelito, o material recuperado revela sobretudo a maneira como a atriz encarava a profissão. Ele identifica em Marília uma consciência profissional marcada pela disposição de fazer o melhor possível, sem aceitar um resultado apenas razoável. A percepção também orientou a leitura que o diretor deseja provocar entre espectadores jovens.

Liberdade e compromisso

A montagem contou ainda com o trabalho da editora Jordana Berg, responsável por ajudar a organizar o grande volume de registros. O desafio, segundo Zelito, não era encontrar bons momentos, mas decidir quais deles não entrariam no filme.

A ideia de liberdade aparece como síntese da trajetória apresentada. O documentário termina com uma declaração de Marília: “Eu queria ser livre”. Para o diretor, a frase reúne o desejo de autonomia e o compromisso com a profissão, especialmente no campo da arte.

A contradição permanece no centro do projeto: para homenagear a atriz, Zelito precisou contrariar uma vontade que ela havia manifestado em vida. Marília não queria biografia, em livro ou em qualquer outro formato. A família assistiu ao documentário e aprovou o resultado. A reação, conta o diretor, foi marcada pela emoção.

Texto produzido pela Redação Olhar Plural com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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