SÃO PAULO — Aos 17 anos, Taís Araújo assumiu o papel central de Xica da Silva, novela da TV Manchete que se tornou um marco por ter uma protagonista negra na televisão brasileira. A produção estreou em 17 de setembro de 1996, e a atriz, hoje em cartaz com o solo Mudando de Pele, segue refletindo sobre os limites e as transformações da representação negra no país.
Na época da novela, Taís dizia que seu maior motivo de orgulho era interpretar a primeira protagonista negra da televisão brasileira. Em dezembro de 1996, ao comentar a escolha, ela observou que provavelmente não teria recebido o papel se a personagem principal não fosse uma escrava. Também relatou que já havia sido impedida de gravar um comercial de sorvete para exibição na Espanha por ser negra.
A repercussão do marco, porém, não ocupou o centro do debate público naquele momento. Parte da atenção se voltou para a sensualidade da atriz e para a possibilidade de cenas de nudez depois de seu aniversário de 18 anos, celebrado em 25 de novembro de 1996. Na semana de estreia, a revista Manchete mencionou a presença de Taís e Norton Nascimento em papéis principais, mas ressaltou sobretudo o pioneirismo do diretor Walter Avancini.
Avancini reconhecia que a televisão havia restringido historicamente o espaço de atores negros. Em entrevista ao Jornal do Brasil, afirmou: “A televisão sempre se omitiu com relação à identidade negra”. O pesquisador Joel Zito de Araújo também tratou do tema em seu documentário A Negação do Brasil, ao abordar a predominância de personagens negros em posições sociais subalternas ou em papéis de pouca importância nas primeiras décadas da televisão.
Da estreia ao protagonismo
Antes de Xica da Silva, Taís havia participado de Tocaia Grande, novela da TV Manchete exibida em 1995. Interpretava Bernarda, personagem que se apaixonava pelo padrinho, Natário, vivido por Roberto Bonfim. O trabalho chamou a atenção de Avancini, que a convidou diretamente para a nova novela, sem que ela passasse pelo extenso processo de testes feito por outras candidatas.
A escolha levou a atriz do elenco secundário ao papel principal. A novela alcançou audiência acima da expectativa da Manchete e impulsionou sua carreira. Na reta final, Taís recebeu uma proposta da Rede Globo para integrar Anjo Mau. Sua saída da emissora ocorreu em meio a um conflito com Avancini relacionado à recusa de uma cena de sexo anal. Ela afirmou que não se sentia preparada e considerava a sequência desnecessária para a trama.
Na Globo, Taís voltou a ocupar posições inéditas. Em 2003, tornou-se a primeira pessoa negra a protagonizar uma novela da emissora, em Da Cor do Pecado, no horário das 7. Em 2009, protagonizou Viver A Vida, no horário nobre.
Ao revisitar aquele início de carreira, a atriz reconheceu que ainda era uma jovem em formação, mas afirmou que já demonstrava compreensão sobre as questões raciais. Em sua trajetória posterior, também foi escolhida para representar uma boneca negra e declarou que se tornaria uma referência para a população negra.
O percurso iniciado em Xica da Silva permanece associado à ampliação do espaço de artistas negros na televisão. A própria Taís continua defendendo a necessidade de diversificar as narrativas: “Precisamos apresentar histórias que vão ampliar a temática preta”.


