Uberlândia, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
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Papaya acompanha semente que busca liberdade sem abandonar suas raízes

Sem diálogos, animação de Priscilla Kellen transforma a jornada de uma semente em reflexão sobre pertencimento, autonomia e redes de apoio.

Papaya acompanha semente que busca liberdade sem abandonar suas raízes
Foto: Cajuína Audiovisual/Divulgação

Uma semente de mamão decide que quer voar, embora sua natureza pareça ligada à criação de raízes. É desse conflito entre partir e pertencer que nasce Papaya, primeiro longa-metragem de Priscilla Kellen, lançado nos cinemas brasileiros na quinta-feira, 24. Com 74 minutos e sem diálogos, a animação constrói sua narrativa por meio de cores, sons, movimentos e formas.

A história acompanha uma personagem que deseja conhecer o mundo, experimentar possibilidades e alcançar o céu, mas ainda não tem autonomia para conduzir inteiramente os próprios passos. O impulso de escapar do destino atribuído a uma semente se transforma, aos poucos, em uma descoberta: criar raízes também pode significar encontrar sustentação, e não apenas permanecer imóvel.

Uma personagem entre a infância e a descoberta

A ideia do filme surgiu em 2018 e percorreu sete anos de produção. Nesse intervalo, a relação de Priscilla com a protagonista mudou. No começo, a diretora se reconhecia mais na mãe-mamoeiro. À medida que Papaya ganhou forma, passou a se identificar com a semente curiosa, teimosa e determinada a olhar para cima.

A protagonista foi imaginada como uma criança diante do mundo. A metáfora se tornou mais próxima da diretora depois que ela se tornou mãe, ao observar o comportamento dos bebês e a combinação entre curiosidade e dependência. A personagem quer agarrar o mundo, mas ainda não consegue realizar sozinha tudo o que deseja.

Essa experiência também alterou o sentido atribuído às raízes. Para Priscilla, o nascimento do filho tornou mais evidente que algumas escolhas deixam de ser inteiramente individuais. Ao mesmo tempo, mostrou a importância das redes de apoio, das trocas de saberes e do amparo construído em conjunto.

“Esse enraizamento nem tão voluntário assim foi se mostrando útil e necessário”, afirma a diretora. No percurso de Papaya, a busca pela liberdade não desaparece; ela passa a conviver com a compreensão de que pertencer também pode oferecer condições para o movimento.

Uma narrativa sem palavras

A ausência de diálogos decorre da maneira como Priscilla compreende a comunicação. Antes da fala, a personagem se expressa pelo rosto, pelos gestos, pela respiração e pela forma como se movimenta. A animação combina recursos do desenho e do cinema mudo com referências de videoclipe e infográfico.

Em vez de explicar cada sentimento, o filme acompanha as descobertas da semente e preserva espaços para a interpretação. A diretora quis deixar lacunas na narrativa e nas imagens, confiando que pessoas de diferentes idades poderiam observar, interpretar e atribuir sentidos próprios ao que acontece.

Essa escolha também orienta a relação da obra com as crianças. Não é necessário que cada imagem tenha uma única leitura para que a trajetória da protagonista seja compreendida. O espectador é convidado a completar o que não está dito, acompanhando a transformação de uma vontade de voar em uma reflexão sobre autonomia e pertencimento.

Visualmente, Papaya é uma animação em 2D marcada por muitas cores, grafismos e referências a artesanatos latino-americanos. A estética também incorpora elementos associados a sacolas de feira, colchas de retalho e colagens de Henri Matisse. Priscilla define essa combinação como “tropicalismo pós-apocalíptico”.

A proposta visual precisou considerar as condições concretas da produção. A diretora buscava riqueza de formas e texturas, mas precisava de um estilo que pudesse ser reproduzido por diferentes profissionais e estúdios. Algumas escolhas foram ajustadas durante o processo para tornar a execução possível, mantendo a identidade do filme.

A trajetória da diretora e do filme

Formada em Design Gráfico pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), Priscilla acumulou experiência em animação, ilustração e televisão. Em sua trajetória, trabalhou no estúdio Filme de Papel, com funções ligadas a Garoto Cósmico e O Menino e o Mundo, de Alê Abreu, que também é coprodutor de Papaya.

Antes da estreia no Brasil, o longa foi selecionado para a mostra Generation KPlus do Festival de Berlim de 2026. A participação tornou o filme o primeiro longa-metragem de animação brasileiro na competição. A obra também passou pelo New York International Children’s Film Festival, pelo Anima, em Bruxelas, pelo Festival de Xangai e pelo BAFICI, em Buenos Aires.

Para Priscilla, a recepção em diferentes países reforçou a possibilidade de que a história atravesse fronteiras culturais. As inquietações da semente — o desejo de liberdade, a necessidade de apoio e a relação com o futuro do planeta e da espécie — podem provocar identificação em públicos distintos.

A diretora resume essa percepção ao afirmar que, em essência, as pessoas são mais parecidas do que diferentes. No centro do filme, Papaya continua olhando para o alto, sem que a vontade de voar precise eliminar a possibilidade de criar raízes.

Texto produzido pela Redação Olhar Plural com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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