BRASÍLIA — A presença de duas personagens interpretadas pela mesma atriz organiza a busca de identidade em Ana, en Passant, primeiro longa exibido na competição do Brasília 2026. Jéssica Pierina interpreta Ana e Alice, mulheres muito parecidas cuja aproximação conduz a narrativa para um território entre a memória, o sonho e a possibilidade de uma fusão entre as duas — talvez “Analice”. O filme recebeu aplausos do público do Cine Brasília.
Ana é franco-brasileira e deixa Paris depois da morte da avó. Antes de morrer, a avó entrega a ela um envelope com uma foto e um endereço em Belo Horizonte. Ao chegar ao local, Ana descobre que o apartamento está ocupado por Alice, uma mulher grávida que guarda semelhanças físicas com ela. O encontro passa a funcionar como uma tentativa de reencontro da protagonista consigo mesma.
Uma construção coletiva
A diretora Fernanda Salgado combina diferentes técnicas de animação, especialmente a rotoscopia. Nesse procedimento, os atores são filmados sobre um fundo neutro e depois submetidos a técnicas de animação. O resultado aproxima certo realismo de uma atmosfera onírica, adequada ao vínculo misterioso entre Ana e Alice.
A produção contou com a participação de 60 animadores. A dimensão coletiva levantou, durante o debate, uma discussão sobre autoria. Fernanda Salgado demonstrou segurança em relação ao que pretendia realizar e reconheceu que o filme também resulta das múltiplas contribuições reunidas ao longo do processo.
O universo do longa ainda abriga um velho carteiro-filósofo, interpretado por Carlos Francisco. Mesmo submetidas a um elaborado trabalho visual, as personagens preservam uma dimensão humana, assim como a dupla central. A animação dialoga com a vídeo arte e reforça a lógica própria do ambiente de sonho em que a história se desenvolve.
Memória em outras formas
A primeira noite competitiva também apresentou dois curtas de realizadores iniciantes. Mariposa, de Alexandre Américo e Pedro Vitor, situa dois personagens nas dunas de Santa Rita, em um território formado por lembranças. Em preto e branco, o filme se apoia mais nas sensações do que na narrativa.
Já Vejo Você de Repente, de Aída da Costa, parte da memória do pai da diretora, que, como ela afirma, “sem aviso prévio, decide não continuar”. Trinta anos depois, a cineasta recompõe essa experiência por meio de fragmentos esparsos e raros. O passado aparece como ruína e vestígio, ponto de partida para uma reconstrução imaginária daquilo que o tempo levou.


