Maya era uma cachorrinha de estimação que acompanhava a fotógrafa ucraniana Iryna Kalamurza durante o trabalho. As imagens feitas em um estúdio de Kiev, no começo dos anos 2010, acabaram atravessando fronteiras e deram origem a uma sucessão de memes no Brasil e em outros países.
Iryna administrava um estúdio fotográfico e aproveitava as horas vagas para praticar. Em uma dessas ocasiões, fotografou Maya, uma Jack Russell Terrier expressiva e acostumada a estar ao lado da tutora. Os retratos foram colocados em um banco de imagens digitais, onde usuários podem comprar direitos de uso.
O destino das fotografias, porém, foi muito além da publicidade ou dos arquivos de imagens. Elas passaram a aparecer em perfis de redes sociais, camisetas, questões de matemática, cartazes levados a shows e tatuagens. A cadela também ganhou nomes diferentes. No Brasil, tornou-se conhecida principalmente como A Folou ou Ai Folou, muitas vezes tratada como se fosse um cachorro macho.
De I Follow Rivers a A Folou
A origem do apelido está em um vídeo publicado no Twitter em 2021. A montagem reúne fotografias de Maya ao som de “I Follow Rivers”, música da cantora sueca Lykke Li. O refrão, com o trecho “I-I follow, I follow you deep sea, baby”, foi transformado em uma escrita fonética aportuguesada: A Folou.
O vídeo foi republicado no YouTube algumas semanas depois e passou a circular também no TikTok. A combinação entre as expressões da cadela, a música e a simplicidade da brincadeira alcançou um público amplo, embora não exista uma explicação definitiva para o fato de aquela montagem ter se espalhado tanto.
As fotografias ofereciam muitas possibilidades. Maya aparece sorrindo, desconfiada, curiosa ou usando óculos, em diferentes poses e ângulos. Essa variedade fez com que as imagens fossem usadas por marcas de pet shops e produtos para animais, mas também em memes sem relação com o universo dos bichos.
No Brasil, a semelhança com os vira-latas caramelo pode ter ajudado a popularizar a personagem. A partir daí, surgiram publicações de pessoas que diziam ter encontrado cachorros A Folou na rua ou em anúncios.
Uma personagem da cultura digital
Iryna só percebeu a dimensão do fenômeno em 2021, quando começou a receber mensagens de desconhecidos que diziam gostar de Maya. Até então, a presença da cadela na internet se limitava a uma conta pouco ativa no Instagram. A fotógrafa conta que tem dificuldade com redes sociais e passou a publicar mais depois do aumento no número de seguidores.
“É, ao mesmo tempo, esquisito e lindo que pessoas de outro continente estejam dizendo palavras tão bonitas sobre minha cachorra”, afirmou Iryna.
A fotógrafa hoje mora em Barcelona, na Espanha. Mesmo entre seus amigos espanhóis e ucranianos, segundo ela, é difícil dimensionar a popularidade que Maya alcançou no Brasil.
A imagem também foi incorporada a outros contextos. Um professor de matemática usou o “cachorro A A FOLOU” em um vídeo no TikTok para chamar a atenção dos alunos e explicar o cálculo de fatoriais. A cadela ainda apareceu em tatuagens. Pelas contas de Iryna, pelo menos cinco pessoas já escolheram eternizar Maya na pele.
Para adquirir fotografias de um banco de imagens, em teoria, é necessário pagar pelo uso, com divisão do valor entre o fotógrafo e a plataforma. Como os memes frequentemente utilizam versões de baixa qualidade, a circulação das imagens aconteceu muitas vezes sem licenciamento. Iryna diz não se incomodar com esse uso quando não há finalidade comercial. O problema, para ela, está na utilização indevida por marcas e produtos.
Outros nomes, a mesma cadela
Em 2022, Maya ganhou outro meme internacional ao ser associada à música “Summer”, de Calvin Harris. O nome Wenomechainsama reproduz, de forma fonética, o início do verso “when I met you in the Summer”. A brincadeira se tornou popular a ponto de o próprio Calvin Harris compartilhar uma versão, na qual uma pessoa acompanha a suposta letra nos bastidores.
Um fã também levou um cartaz com a imagem de Maya e o nome do meme a um show do músico. Assim, a cadela fotografada em Kiev passou a ocupar espaços diversos: redes sociais, salas de aula, produtos, tatuagens e apresentações musicais.
Iryna descreve Maya como alegre, parceira e aventureira. As duas faziam trilhas e viajavam juntas. A fotografia preferida da tutora não foi feita em estúdio, mas depois de uma caminhada nos Cárpatos Ucranianos, enquanto as duas observavam a paisagem.
“Como lá é o ponto mais alto da Ucrânia, não são muitos ucranianos que já visitaram. Mas a Maya foi duas vezes!”, contou.
Maya morreu em abril de 2026, aos 16 anos. Depois da morte, Iryna se perguntou se a presença constante da cadela em mensagens, produtos e memes tornaria o luto mais difícil. A resposta, segundo ela, veio com o tempo: o contato com as pessoas que se afeiçoaram à imagem de Maya acabou sendo terapêutico.
“Mesmo que não esteja mais conosco, ela ainda faz as pessoas rirem, ela vai a shows”, disse Iryna. A cadela deixou de ser apenas a companheira de uma fotógrafa e passou a existir em uma memória coletiva, moldada por músicas, trocadilhos, imagens e diferentes formas de reconhecimento.


