Uberlândia, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
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Entre prisões e exílios, Mauricio Stycer reconstrói a história de três parentes

Em “Rotas de Fuga”, o jornalista reúne as trajetórias de Jacob, Abraham e Boruch diante de guerras, perseguições e antissemitismo.

Entre prisões e exílios, Mauricio Stycer reconstrói a história de três parentes
Foto: Ronny Santos/Folhapress

Durante décadas, Mauricio Stycer ouviu dos amigos que deveria transformar em livro a história de seu pai, um judeu polonês que escapou do nazismo por uma rota que passou pela Ásia. O projeto só ganhou forma agora, aos 65 anos, com a publicação de “Rotas de Fuga”, pela editora Seja Breve.

A obra amplia o foco para três gerações da família: o avô materno, Jacob; o tio paterno, Abraham; e o pai, Boruch. As trajetórias atravessam guerras, regimes autoritários e o antissemitismo da primeira metade do século 20. Para Stycer, esses temas não pertencem apenas ao passado. A percepção de que continuam presentes está entre os motivos que o levaram a retomar a escrita.

O silêncio de Boruch

A morte do pai, em 2020, aos 103 anos, também alterou a relação de Stycer com o material familiar. Boruch evitava falar sobre o passado e não costumava narrar a própria experiência como uma aventura. “Antes disso, eu tinha um certo pudor”, afirmou Stycer. Depois da morte, o jornalista se sentiu mais livre para investigar os silêncios do pai e compreender o que havia por trás deles.

Boruch nasceu na Polônia e passou uma década fugindo do nazismo. Sua rota incluiu Vilnius, Kaunas, Moscou e Vladivostok, antes de seguir para Kobe, no Japão, e Xangai, na China. A passagem pela Ásia ocupa a parte central de sua história no livro.

Desde a infância, Stycer ouvia o relato de que um cônsul honorário holandês e um vice-cônsul japonês haviam articulado uma saída para judeus europeus, encaminhando-os ao Japão e à China. A pesquisa em livros e arquivos mostrou que a narrativa correspondia a acontecimentos reais. O jornalista encontrou o nome de Boruch entre os vistos concedidos pelo Japão.

Para reconstituir esse percurso, também utilizou uma entrevista gravada na década de 1990 por seu irmão, Daniel. Em alguns pontos, acrescentou observações próprias para marcar divergências entre a versão do pai e os fatos encontrados durante a pesquisa.

Jacob e o caderno em iídiche

A primeira história do volume é a de Jacob, nascido no Império Russo e convocado para o exército do czar durante a Primeira Guerra Mundial. Ferido nos Cárpatos, ele fugiu para casa e passou a ser tratado como desertor. Durante um ano, circulou pela Ucrânia entre hospitais e prisões militares, enfrentando maus-tratos e o processo para se desvincular da Justiça.

A principal fonte dessa trajetória foi um caderno vermelho, escrito em iídiche. A tradução havia sido encomendada pela mãe de Stycer décadas antes, mas o resultado era quase ilegível. Uma nova tentativa de compreender o manuscrito se tornou parte do próprio trabalho de pesquisa.

O relato de Jacob pode conter liberdades poéticas, mas Stycer não procurou estabelecer uma versão definitiva dos acontecimentos. Preferiu registrar aquilo que as fontes permitiam. Entre as cenas preservadas está a chegada do avô a uma casa abandonada, onde encontrou quatro velas acesas e velhos judeus rezando escondidos em meio à guerra.

Abraham e a missão deixada ao sobrinho

Abraham, tio paterno de Stycer, aparece como uma figura importante do Bund, movimento operário e socialista judeu. Detido pelos soviéticos, passou por prisões e interrogatórios antes de fugir para os Estados Unidos, onde viveu em Nova York.

Stycer o conheceu pessoalmente apenas uma vez, já adulto, durante uma visita a Manhattan. Na ocasião, Abraham lhe entregou um livro que reunia, entre outros textos, um capítulo sobre seu encontro com um dos líderes do Bund na prisão. O volume e os artigos escritos pelo tio se tornaram fontes para a reconstrução de sua história.

O encontro deixou no jornalista a impressão de que Abraham lhe confiava uma responsabilidade: preservar aquela experiência e transmiti-la adiante.

A família reunida no livro

As três trajetórias também explicam a própria origem de Stycer. Depois da passagem pela China, Boruch ficou algum tempo nos Estados Unidos com Abraham. Mais tarde, investiu no comércio de pedras preciosas e foi ao Rio de Janeiro em busca de clientes. Hospedado no apartamento de Sonia, filha de Jacob, conheceu a mulher com quem se casaria em 1960.

Ao escrever, Stycer precisou abandonar a distância habitual do trabalho jornalístico. O desafio, segundo ele, foi “sair do armário do jornalista”: admitir que o livro também tratava de si mesmo e de seus parentes, além dos acontecimentos que marcaram suas vidas.

Texto produzido pela Redação Olhar Plural com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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