A memória, nos romances de Machado de Assis, não funciona como um arquivo intacto. Ao retornar ao que viveram, os personagens tentam compreender mudanças, perdas e escolhas antigas, mas também revelam que suas lembranças podem conter lacunas, alterações e contradições. O passado reaparece menos como certeza do que como matéria sujeita à interpretação.
Morto em 29 de setembro de 1908, Machado explorou a distância entre a pessoa de antes e aquela que se tornou outra com o passar dos anos. Em Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Esaú e Jacó, o tempo modifica não apenas pessoas e sentimentos, mas também a forma como uma história é organizada e contada.
O tempo como transformação
Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, a relação entre a passagem dos anos e a existência aparece condensada na frase: “Matamos o tempo; o tempo nos enterra.” A formulação aproxima a tentativa humana de controlar os dias da impossibilidade de escapar de seus efeitos.
Já em Dom Casmurro, o narrador reconhece que seu projeto de unir juventude e velhice não se realizou. A tentativa de reconstruir a própria trajetória esbarra na constatação de que não é possível recompor integralmente nem o passado vivido nem a pessoa que se foi.
Em Esaú e Jacó, Machado compara o tempo a um agente que corrói ou modifica as coisas, conferindo a elas uma aparência diferente. Em outra passagem do mesmo romance, a passagem dos anos surge como um tecido invisível sobre o qual podem ser bordados elementos diversos, entre flores, pássaros, damas, castelos e túmulos.
O que permanece incompleto
A mudança, porém, não é apresentada necessariamente como perda. Em Dom Casmurro, uma vida diferente é descrita como algo que não precisa ser pior, mas simplesmente outro modo de existir.
Por fim, Esaú e Jacó observa que os acontecimentos graves deixam detalhes pelo caminho. Quando a imaginação preenche essas ausências, a história não deixa de existir, mas passa a carregar também aquilo que foi reconstruído pela memória.


