Domingo, 6 de setembro de 2026
Ideias, cultura e reportagem
Brasil

Roberto Schwarz e a literatura como forma de interpretar a sociedade brasileira

A obra do crítico articula literatura, história e relações sociais para investigar os impasses da formação brasileira.

Roberto Schwarz e a literatura como forma de interpretar a sociedade brasileira
Foto: Folhapress

Aos 88 anos, Roberto Schwarz relança seu primeiro livro de ensaios, A Sereia e o Desconfiado (1965), obra que já apresenta elementos centrais de uma interpretação da literatura brasileira fundada na estrutura desigual da sociedade. Em sua crítica, escravismo, clientelismo e ideário liberal-burguês não aparecem como dimensões separadas, mas como partes de uma formação histórica contraditória, capaz de orientar tanto a vida social quanto as formas literárias.

A leitura de seus livros em conjunto revela uma obra articulada, na qual os mesmos problemas retornam, são ampliados e relacionados a novos objetos. A prosa crítica de Schwarz exige atenção para acompanhar argumentos complexos, aproximar conhecimentos de áreas distintas e rever interpretações consolidadas. Ao mesmo tempo, sua escrita combina precisão, autoconsciência e um senso particular de composição, ajustando o estilo à complexidade estética e política de cada tema.

Da crítica cultural à formação do romance

Em Cultura e Política, 1964-69 (1970), depois reunido em O Pai de Família (1978), Schwarz examinou a produção cultural dos primeiros anos da ditadura e o agravamento da repressão a partir de 1968. Escrito no exílio francês, o estudo articulou a experiência artística e os conflitos políticos do período, construindo um diagnóstico de época sem se limitar a uma visão panorâmica.

Ao longo da década de 1980, os estudos que formariam Um Mestre na Periferia do Capitalismo (1990) consolidaram uma prosa mais fluida, rigorosa e clara. A análise da obra de Machado de Assis passou a ocupar o núcleo de sua reflexão crítica, especialmente a partir de As Ideias Fora do Lugar, ensaio de 1972 que abre Ao Vencedor as Batatas (1977).

O ensaio investigou o deslocamento de ideias e formas modernas para uma sociedade marcada pelo escravismo e pelas relações de favor. O problema não estaria simplesmente na importação de modelos estrangeiros, mas na estrutura social que os recebia e os tornava contraditórios. Em Nacional por Subtração (1986), Schwarz retomou essa questão ao relacionar o sentimento de inautenticidade cultural à segregação da maioria da população e à posição instável da cultura em uma sociedade desigual.

A análise de Senhora, de José de Alencar, permitiu ao crítico examinar a adaptação do romance europeu à realidade brasileira. A forma romântica e realista, ao ser deslocada para a sociedade local, revelava uma cisão entre o enredo principal e as relações sociais que apareciam nas margens da narrativa. O desajuste não era apenas uma deficiência formal: fazia parte da própria matéria que o escritor brasileiro precisava elaborar.

A matéria brasileira

Para Schwarz, a chamada matéria brasileira corresponde ao sistema de relações sociais produzido pela história do país e do mundo, além dos pontos de vista inscritos nesse sistema. Ela se manifesta na linguagem, nas tradições culturais, nos temas e nas situações trabalhados pelos escritores. Por isso, pode organizar tanto uma obra de grande elaboração artística quanto um diário de caráter despretensioso.

A formulação alcança seu desenvolvimento mais conhecido na leitura de Memórias Póstumas de Brás Cubas, em Um Mestre na Periferia do Capitalismo. A volubilidade do narrador permite incorporar referências à civilização moderna, mas subordinadas ao arbítrio do defunto-autor. A solução formal de Machado de Assis, nessa interpretação, resolve impasses acumulados na tradição brasileira do romance e expõe a estrutura de dominação da sociedade e da ordem capitalista-burguesa.

Esse movimento relaciona a experiência brasileira à história mundial e retoma uma possibilidade já presente em Dialética da Malandragem, de Antonio Candido. A continuidade da tradição literária, nessa perspectiva, não resulta apenas da soma de soluções bem-sucedidas. Ela envolve também problemas persistentes, inscritos nos materiais com que os escritores trabalham e nas formas pelas quais se relacionam com a tradição.

Schwarz identificou possibilidades de investigação em autores como Graciliano Ramos, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Glauber Rocha, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. O objetivo seria compreender como diferentes obras formalizam uma mesma problemática histórica, sem apagar a especificidade artística, ideológica e política de cada solução.

Um programa para a crítica

Essa perspectiva atravessa os estudos de Schwarz sobre obras de autores como Chico Buarque, Caetano Veloso, Paulo Lins, Francisco Alvim, Zulmira Ribeiro Tavares e Sergio Bianchi. Em cada caso, a análise procura relacionar a construção formal às relações sociais depositadas nos materiais da obra e às transformações de conjunturas específicas.

O crítico também incorporou debates e entrevistas aos livros, sobretudo em Seja como For (2019), que reúne textos produzidos entre 1976 e 2019. A entrevista, por sua forma mais acessível, permitiu a Schwarz explicar conceitos, desenvolver questões laterais e comentar os próprios procedimentos de análise.

Em discurso ao receber o título de professor emérito da Unicamp em 2022, Schwarz discutiu mudanças nos estudos literários e defendeu uma crítica independente, voltada às obras, não aos autores. Para ele, a literatura constitui uma forma própria de investigar o mundo, distinta da ciência e da teoria, mas dotada de valor de conhecimento.

Retomar sua obra, portanto, não significa apenas repetir suas interpretações sobre Machado de Assis ou sobre a formação brasileira. Significa recolocar em exame os problemas que sua crítica identificou: a relação entre formas importadas e experiências locais, a permanência das desigualdades na cultura e as maneiras pelas quais a literatura transforma uma matéria histórica em construção artística.

Texto produzido pela Redação Olhar Plural com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

Entre na nossa newsletterO melhor da semana, sem spam.