FLORIANÓPOLIS — Restam apenas 7 minutos de O Preço da Ilusão, longa-metragem realizado em 1957 e considerado o primeiro longa de ficção de Santa Catarina. O filme desapareceu do circuito depois de uma estreia marcada por críticas negativas, mas sua trajetória voltou ao centro das atenções no FAM 2026 com a exibição do documentário Caminhos do Desejo, de Andrey Santiago.
A sessão ocorreu no Teatro Álvaro de Carvalho (TAC), sede atual do festival, depois de uma caminhada pelo centro de Florianópolis. A programação do 7 de setembro aproximou a história do filme da memória dos cinemas de rua que formaram a chamada Cinelândia, nas proximidades da Catedral Metropolitana.
Os cinemas que mudaram de função
Guiado pelo arquiteto Guga Andrade, o grupo passou pelos locais onde funcionavam Roxy, Ritz, Cine Cecomtur e São José. Este último tinha capacidade para mil espectadores e era conhecido pelo luxo das instalações. Hoje, abriga uma igreja; os demais prédios também passaram a cumprir outras funções.
Cerca de 200 pessoas participaram do percurso, entre convidadas do festival e moradores da cidade. Algumas delas, de maior idade, relembraram os filmes vistos nas salas que já não existem e a movimentação do centro, onde os cinemas ocupavam um lugar importante na vida urbana.
Os edifícios permaneceram como marcas visíveis de um período encerrado. A visita também se relacionou à discussão sobre a revitalização do centro, para a qual a reabertura de um cinema teria impacto simbólico.
A história de uma estreia interrompida
Caminhos do Desejo acompanha a produção e o desaparecimento de O Preço da Ilusão, cuja estreia ocorreu no próprio TAC. Na sessão, os roteiristas Salim Miguel e Eglê Malheiros deixaram o local pelas portas laterais antes do fim, constrangidos com o resultado. Anos depois, Eglê resumiu a impressão sobre a montagem: “As cenas não se conectavam entre si”.
No dia seguinte, jornais atacaram o filme. Uma manchete o chamou de “Uma bomba cinematográfica”, enquanto um crítico questionou a possibilidade de sua distribuição em São Paulo. Depois dessa recepção, a obra deixou de circular. Dos 75 minutos originais, apenas 7 foram preservados na Cinemateca Brasileira. O roteiro, no entanto, permanece intacto para estudos.
A narrativa apresentava duas tramas paralelas. Em uma, uma funcionária pública entediada buscava a fama ao se candidatar a rainha do verão, com o apoio de um homem rico e de ética duvidosa. Na outra, um menino engraxate sonhava formar um conjunto de boi mamão, brincadeira tradicional da cidade. O desfecho trágico se passava na Ponte Hercílio Luz.
O fracasso como ponto de partida
O documentário também recupera a atuação do Grupo Sul, reunião de intelectuais contestadores da qual participavam Salim Miguel e Eglê Malheiros. Eglê recebe atenção especial por sua presença na vida cultural de Florianópolis e por sua atuação política de esquerda.
A permanência do filme na memória catarinense é apresentada como parte de seu legado. Embora tenha sido rejeitado pela crítica e ignorado pelo público, O Preço da Ilusão sustentou a ideia de que o cinema poderia ser feito no estado. Para o cineasta Zeca Pires, a obra mostrou que “o cinema seria possível por aqui”.
A produção também aproximou profissionais de outros estados dos intelectuais catarinenses, em interlocução com centros como São Paulo e Rio. Paulo Emílio Sales Gomes publicou no Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo o artigo Primavera em Florianópolis.
Em 2007, Marco Stroisch e Bob Barbosa realizaram o curta Desilusão, de 23 minutos, reconstruindo e atualizando a trama do longa de 1957. A existência de novas obras sobre O Preço da Ilusão mantém em circulação a história de um filme quase desaparecido e do grupo de jovens intelectuais que o realizou.
A caminhada pelos antigos cinemas e a exibição do documentário aproximaram passado e presente. A memória, nesse percurso, não aparece apenas como lembrança: também se relaciona aos desafios atuais do centro e à possibilidade de recuperar espaços de exibição.


