Uberlândia, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
Ideias, cultura e reportagem
Cinema

Em “A Ilha Esquecida”, uma amizade enfrenta o risco de desaparecer

Animação de Joel Crawford e Januel Mercado combina invenção visual e intimidade ao transformar a memória em centro da aventura.

Em “A Ilha Esquecida”, uma amizade enfrenta o risco de desaparecer

“A Ilha Esquecida” acompanha a última noite de Jo e Raissa antes de uma separação que ameaça alterar a forma como as duas permanecem na vida uma da outra. Depois de terminarem o ensino médio, as amigas se preparam para a mudança de Raissa para os Estados Unidos. A amizade continua, mas a rotina próxima e intensa que a construiu está prestes a desaparecer.

Ambientada nas Filipinas dos anos 1990, a animação desloca essa despedida para o fantástico quando um portal transporta as protagonistas até Nakali, uma ilha habitada pelas criaturas das histórias que elas ouviam durante a infância. A possibilidade de voltar para casa ao custo da memória da amizade transforma a aventura em uma extensão do medo que já existia antes da viagem: deixar de fazer parte do cotidiano de alguém e, com isso, começar a desaparecer da vida dessa pessoa.

Uma amizade construída em movimento

Joel Crawford e Januel Mercado, diretores de “Gato de Botas 2: O Último Pedido”, dedicam atenção à relação das protagonistas antes de colocá-la em risco. Uma sequência acompanha Jo e Raissa desde o primeiro encontro até o presente, recorrendo a uma linguagem associada aos animes. Com poucos diálogos, a montagem atravessa os anos e encontra a intimidade nas expressões, nos gestos e na maneira como as duas compartilham as situações.

A escolha faz com que o vínculo não dependa apenas de explicações. A formação da amizade assume a dimensão de uma epopeia frenética, mas preserva os detalhes que dão peso à promessa feita pelas personagens. Quando Nakali passa a ameaçar essa história, o filme já estabeleceu o suficiente para que a possibilidade da perda tenha efeito emocional.

Esse cuidado também orienta a concepção visual. Na cidade natal das protagonistas, proporções exageradas e cores vivas traduzem a energia das duas. Em Nakali, a liberdade se amplia: criaturas e paisagens alteram continuamente a percepção de escala. Uma galinha pode ocupar o espaço com a imponência de um monstro, enquanto a aparição de um Cãobizomem se encaixa naturalmente naquele universo.

A animação se aproxima da liberdade visual consolidada por obras como “Aranhaverso”, “A Família Mitchell”, “As Tartarugas Ninja” e o próprio “Gato de Botas 2”. O trabalho em 3D convive com passagens em 2D, sobretudo nas narrativas sobre o passado. Os estilos variam conforme o personagem responsável pela lembrança, fazendo com que cada memória tenha uma aparência própria, em vez de funcionar apenas como um sinal convencional de flashback.

A memória como parte da aventura

A estrutura da história também coloca o ato de lembrar no centro da ação. Parte do percurso consiste em reconstituir os acontecimentos que levaram Jo e Raissa àquela situação, em um recurso próximo ao de “Se Beber, Não Case!”. Novas revelações e informações incertas reorganizam o sentido de momentos anteriores, enquanto as protagonistas tentam recuperar o passado para decidir o próximo passo.

Essa organização reforça a ideia de que a amizade não é apenas uma lembrança das personagens, mas algo que elas precisam proteger. Ao recuperar a história compartilhada, Jo e Raissa tentam impedir que ela deixe de existir — e, com ela, uma parte de quem são.

O filme, contudo, nem sempre administra com a mesma precisão a quantidade de elementos que introduz. O segundo ato acumula encontros com personagens cuja função inicial é apresentar uma nova excentricidade ou produzir algumas piadas. Embora vários sejam divertidos, o tempo dedicado a essas apresentações reduz momentaneamente a urgência da fuga. A movimentação constante chega a produzir uma curiosa sensação de pausa, enquanto o conflito principal aguarda o avanço.

A expressividade dos personagens e o contraste entre suas reações e o absurdo das situações rendem sequências eficazes. Em alguns momentos, porém, as gags se prolongam além do necessário, acrescentando exagero a cenas que já funcionavam. O excesso de estímulos não é um problema em si, mas pode interromper uma aproximação emocional ou estender encontros sem ampliar o que havia sido estabelecido.

A distribuição de atenção também enfraquece a vilã. Sua presença disseminada pela história mantém a sensação de perigo, mas seu desenvolvimento não acompanha a importância que ela recebe na vida das protagonistas desde o início, nas referências de um trabalho escolar e na fantasia compartilhada pelas amigas. Enquanto desvios cômicos e figuras passageiras encontram espaço, a antagonista poderia ter um conflito mais desenvolvido.

Quando os elementos da jornada finalmente se conectam, “A Ilha Esquecida” devolve à promessa inicial um peso emocional maior. Perder as lembranças uma da outra significa também perder uma parte de si próprias. Apesar dos desvios, a animação transforma o medo da separação em uma experiência íntima e fantástica, sustentada pela ideia de que algumas amizades continuam compondo quem somos mesmo quando deixam de fazer parte dos nossos dias.

Texto produzido pela Redação Olhar Plural com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

Entre na nossa newsletterO melhor da semana, sem spam.