Uberlândia, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
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O que o diário de Anne Frank revela além da perseguição nazista

Após uma declaração na Bienal do Livro de São Paulo, a obra voltou ao debate público e à discussão sobre memória histórica.

O que o diário de Anne Frank revela além da perseguição nazista

Uma declaração feita durante a 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo recolocou O Diário de Anne Frank no centro do debate público no Brasil. Em um vídeo publicado no TikTok pelo perfil @JovemLiaa, uma visitante afirmou que o diário havia sido sua pior leitura e usou a palavra “vitimista” para justificar a resposta.

A repercussão levou o Museu do Holocausto e a Federação Israelita a divulgar notas de repúdio. As instituições defenderam que o livro seja lido a partir de seu contexto: o relato de uma adolescente judia escondida durante a perseguição nazista na Holanda. Também ressaltaram que registrar o próprio sofrimento sob terror estatal não reduz uma pessoa à condição de vítima.

Uma família perseguida pelo nazismo

Annelies Marie Frank nasceu em Frankfurt, na Alemanha, em 12 de junho de 1929. Filha de Otto e Edith Frank e irmã mais nova de Margot, ela deixou o país com a família depois da ascensão do Partido Nazista e da chegada de Adolf Hitler ao poder, em 1933. Os Frank se mudaram para Amsterdã, onde Anne estudou, aprendeu o idioma local e construiu novas amizades.

A Alemanha invadiu a Holanda em 10 de maio de 1940. A partir daí, medidas antissemitas restringiram a vida dos judeus e ampliaram a perseguição. Otto tentou levar a família para os Estados Unidos, mas não concluiu o processo antes do fechamento dos consulados americanos nos territórios ocupados.

Em julho de 1942, depois que Margot recebeu uma convocação para se apresentar a um campo de trabalhos forçados, os quatro integrantes da família decidiram se esconder. Anne tinha 13 anos.

A vida no Anexo Secreto

O esconderijo ficava nos fundos do prédio onde funcionavam os negócios de Otto, na rua Prinsengracht, número 263, em Amsterdã. Uma estante móvel ocultava a entrada do espaço de aproximadamente 120 metros quadrados, chamado por Anne de Anexo Secreto.

O local abrigava oito pessoas: a família Frank; Hermann e Auguste van Pels e o filho, Peter; e o dentista Fritz Pfeffer. Durante o expediente do armazém, os moradores precisavam evitar ruídos. Não podiam usar água corrente, dar descarga ou conversar normalmente. Também tinham de conter risadas, tosses e espirros.

Anne estudava e lia pela manhã. À tarde, ouvia o rádio e acompanhava notícias, inclusive as transmissões da BBC. A rotina dependia da ajuda de Miep Gies, Johannes Kleiman, Victor Kugler e Bep Voskuijl, funcionários de confiança de Otto que levavam comida, roupas e outros suprimentos.

O diário e suas versões

Anne ganhou um caderno de capa de pano xadrez ao completar 13 anos, em 12 de junho de 1942, e decidiu escrever nele. Seus registros tratavam da guerra, mas também das relações entre os moradores, da família, das amizades, das mudanças no corpo, da sexualidade, da literatura, da natureza e de seus sentimentos por Peter. Ela desejava se tornar escritora ou jornalista.

A figura de Kitty, destinatária dos textos, não correspondia a uma amiga real. O nome vinha de uma personagem da série infantojuvenil Joop ter Heul, escrita por Setske de Haan sob o pseudônimo Cissy van Marxveldt.

Depois de ouvir o ministro da Educação do governo holandês no exílio, Gerrit Bolkestein, defender a preservação de diários, cartas e documentos da guerra, Anne decidiu reescrever parte do material pensando em uma publicação. Em 29 de março de 1944, registrou a intenção de transformar a experiência em um livro sobre o esconderijo.

A obra conhecida hoje resulta de quatro versões. A primeira reúne o manuscrito original, iniciado em junho de 1942. A segunda é a reescrita feita por Anne em 1944. A terceira foi organizada por Otto Frank para a publicação de 1947, com a retirada ou o resumo de trechos sobre a sexualidade da filha e as críticas à mãe. A quarta, preparada por Mirjam Pressler e publicada em 1995, recuperou passagens omitidas e ampliou o livro para mais de 700 páginas.

Prisão, morte e publicação

A última anotação foi feita em 1º de agosto de 1944. Três dias depois, a Gestapo invadiu o esconderijo e prendeu seus oito moradores. A razão exata da descoberta continua em debate histórico.

Miep Gies e Bep Voskuijl recolheram e preservaram os escritos. Otto Frank foi o único sobrevivente entre os moradores do anexo. Depois de voltar a Amsterdã e confirmar a morte da esposa e das filhas, recebeu os manuscritos das mãos de Miep.

O livro foi publicado na Holanda em 25 de junho de 1947, sob o título Het Achterhuis (O Anexo Secreto), com tiragem inicial de 3 mil exemplares. Nos Estados Unidos, chegou às livrarias em 1952 como Anne Frank: The Diary of a Young Girl (Anne Frank: O Diário de uma Garota), depois de ser recusado por 15 editoras americanas.

Anne e Margot foram levadas ao campo de concentração de Bergen-Belsen, na Alemanha, depois de passarem pelo complexo de Auschwitz-Birkenau. As duas contraíram tifo e morreram em fevereiro de 1945, com poucos dias de diferença. Anne tinha 15 anos. A libertação do campo ocorreu em abril de 1945, e os corpos das irmãs foram enterrados em uma vala comum.

Uma obra de alcance mundial

Peritos em caligrafia contratados pelo Instituto para Documentação de Guerra confirmaram a autenticidade dos manuscritos, apesar de teorias falsas difundidas por grupos negacionistas do Holocausto. O livro também enfrentou tentativas de censura: em 1983, uma escola no Alabama tentou bani-lo; em 2018, uma escola em Vitória, no Espírito Santo, suspendeu temporariamente a leitura.

Traduzido para mais de 70 idiomas, O Diário de Anne Frank vendeu mais de 35 milhões de exemplares no mundo, cerca de 400 mil no Brasil. A obra ganhou adaptações para teatro, cinema, quadrinhos e realidade virtual. A versão teatral venceu o Prêmio Pulitzer em 1956.

Em 1960, o antigo esconderijo foi transformado na Casa de Anne Frank, em Amsterdã. O museu recebe cerca de 1,2 milhão de visitantes por ano e mantém o diário original em exposição. A preservação do espaço concretiza o desejo registrado pela jovem de continuar vivendo depois da própria morte.

Texto produzido pela Redação Olhar Plural com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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