SÃO PAULO — Criolo interpreta Nó na Orelha na íntegra neste domingo, 13, no Coala Festival, no Memorial da América Latina, em São Paulo. A apresentação marca os 15 anos do álbum, lançando em abril de 2026, e foi organizada a partir de um convite do próprio festival para que o rapper retomasse a formação original e os arranjos das canções.
Mais do que uma retrospectiva individual, Criolo descreve o show como uma celebração de uma geração ligada ao rap brasileiro e às possibilidades de transformação social pela música. Para ele, o convite também reconhece uma trajetória construída ao longo de quase 40 anos dedicados ao gênero.
Um disco criado contra a despedida
A existência de Nó na Orelha esteve ligada a uma decisão que Criolo tomara depois de 22 anos de atividade no rap. Ao lado do DJ DanDan, ele avaliava deixar os palcos por não conseguir se manter financeiramente com a música. Aos 35, 36 anos, enfrentava a aspereza de um subemprego e dependia de familiares.
Nesse momento, Ricardo, integrante do coletivo Matilha Cultural, soube que o rapper pensava em parar. O incentivo dele viabilizou a gravação. Mais tarde, Ricardo apresentou Criolo a Marcelo Cabral, que levou Daniel Ganjaman ao projeto. O álbum se tornou, assim, a última tentativa do artista de viver da música — e acabou ampliando sua relação com o público.
São Paulo como matéria da canção
A cidade ocupa lugar central no disco. Criolo contou que “Não Existe Amor em SP” foi composta durante uma viagem de trem de São Paulo para Osasco. Quinze anos depois, ele afirma que os lugares usados como referência continuam existindo, assim como os sonhos, o desejo de atravessar a cidade e os receios associados a esse deslocamento.
Na avaliação do rapper, também permanecem o abandono e o descaso, enquanto as desigualdades se ampliaram. Ao falar sobre os habitantes de São Paulo, Criolo disse: “Eu acredito que as pessoas que habitam São Paulo são amorosas”. Para ele, a cidade é definida por quem a habita, mas também por quem exerce o poder de construir ou interromper pontes entre as pessoas.
O rap diante de novas estéticas
Criolo afirma que o álbum nasceu das condições de seu tempo, marcado pela expansão da internet e das redes sociais. Se fosse criado hoje, teria outra forma, porque as estéticas e as sonoridades mudaram. Ele observa que as favelas e periferias brasileiras continuam reinventando a música do país.
O rapper também voltou a escrever letras de rap no ano passado, depois de ficar cerca de quatro anos sem compor nesse formato. Descreve esse retorno como algo que não depende apenas de técnica, palavras ou fluxo, mas de um chamado ligado à própria experiência.
Para Criolo, o rap surgiu como uma maneira de afirmar que pessoas nascidas em contextos de privação poderiam ser algo além da obrigação de trabalhar para alguém e suportar desaforos. A apresentação no Coala, portanto, não representa um encerramento de ciclo. É, em sua leitura, uma celebração de uma caminhada que começou antes do álbum, com o DJ DanDan, a Rinha dos MC’s, o Pagode da 27 e o primeiro rap que escreveu, em 1987.


