Uberlândia, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
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CineBH revela como festivais ampliam o cinema e o debate crítico

Na 20ª edição da mostra, críticos discutiram descobertas, representatividade, divergências e o papel de filmes fora do circuito comercial.

CineBH revela como festivais ampliam o cinema e o debate crítico

A 20ª CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte colocou em evidência uma função que ultrapassa a exibição de filmes: aproximar realizadores, críticos e público de obras que nem sempre encontram espaço no circuito comercial ou nas plataformas de streaming.

Em meio às sessões e conversas da mostra, Renato Marafon, Raphael Camacho e o jornalista e crítico Miguel Arcanjo discutiram o papel da crítica de cinema. A conversa partiu de filmes vistos no festival e chegou a questões como representatividade, imparcialidade, divergência de opiniões e circulação do cinema brasileiro e latino-americano.

Descobertas fora do circuito dominante

Miguel Arcanjo apontou Pequenas Tragédias, de Daniel Nolasco, como uma de suas principais descobertas até aquele momento. O filme acompanha um jovem gay em Catalão, no interior de Goiás, e recorre a elementos autobiográficos para abordar pertencimento, sexualidade e a experiência de crescer em um ambiente no qual a diferença pode produzir uma sensação permanente de deslocamento.

A obra, segundo Miguel, evita respostas fáceis ao acompanhar as dúvidas do personagem: permanecer ou partir, encontrar seu lugar ou lidar com a falta dele. O filme também trata da possibilidade de construir uma vida em uma cidade conservadora, marcada por expectativas sobre o que significa ser homem.

A discussão sobre representação levou Renato a recordar a própria adolescência. Ele contou que cresceu como um garoto gay do interior sem encontrar personagens semelhantes nas telas e que chegou a temer ser identificado por retirar uma fita sobre homossexualidade em uma locadora. A lembrança terminou com humor: para não enfrentar esse risco, disse que se tornou a própria moça da locadora.

A experiência, porém, expressava uma questão central. Para Renato, ver a própria história representada é uma das dimensões do cinema, especialmente quando se trata de produções nacionais capazes de aproximar o público de experiências reconhecíveis.

Raphael Camacho destacou a presença do cinema latino-americano na mostra e mencionou uma produção chilena sobre a crise migratória no norte do país. Entre os filmes brasileiros, chamou atenção para Leite em Pó, de Carlos Segundo, protagonizado por Vinícius de Oliveira. A história acompanha um roqueiro frustrado, sobrevivente de trabalhos ocasionais, que é levado por um acontecimento inesperado a uma jornada marcada pelo luto.

A análise desse filme também evidenciou um cuidado próprio da crítica: apresentar uma obra sem retirar do público a experiência de descobri-la. Raphael ressaltou a preocupação em contextualizar sem revelar elementos capazes de comprometer a surpresa narrativa.

A crítica como ponto de vista

A ideia de uma crítica imparcial foi rejeitada por Renato. Para ele, o crítico leva à sessão sua história, suas referências, expectativas e sensibilidades. Duas pessoas podem assistir ao mesmo filme e deixar a sala com interpretações distintas.

“Crítica é pessoal. Não existe crítica imparcial”, afirmou Renato Marafon.

Isso não transforma a crítica em ataque pessoal. A análise pode ser negativa sem abandonar o respeito pelo trabalho realizado, e a divergência permanece como parte essencial da conversa sobre cinema. O crítico apresenta uma leitura; o espectador pode concordar, discordar ou formular uma terceira interpretação.

Essa diferença apareceu na discussão sobre Se Eu Fosse Vivo… Vivia, de André Novais Oliveira, filme que reúne Conceição Evaristo e Norberto Novais Oliveira. A narrativa começa acompanhando um relacionamento e, gradualmente, incorpora elementos fantásticos.

Miguel Arcanjo se interessou especialmente pela primeira parte, ligada ao romance, à velhice, aos problemas de saúde e à finitude. Também destacou a estreia de Conceição Evaristo como atriz, a reconexão da escritora com Minas Gerais e a construção estética do início do filme, ambientado nos anos 1970 e associado aos bailes black.

Raphael Camacho discordou dessa leitura. Para ele, a segunda parte amplia o sentido da trajetória do protagonista e demonstra a disposição de André Novais de deixar o caminho mais previsível. A mudança entre o realismo e o imaginativo, vista por Miguel como uma ruptura, foi compreendida por Raphael como uma expansão necessária da história.

O desacordo não produziu um vencedor. A crítica, nesse caso, não serviu para estabelecer uma verdade única sobre a obra, mas para tornar visíveis diferentes maneiras de assisti-la.

Festivais, circulação e formação de público

A CineBH também trouxe à discussão a relação do público com o cinema brasileiro. Renato questionou a afirmação de que muitas pessoas não gostam de produções nacionais sem, necessariamente, conhecer a variedade do que é realizado no país.

Filmes apresentados em festivais podem não alcançar o circuito comercial ou estrear em poucas salas, embora encontrem nesses eventos uma oportunidade de chegar a espectadores, críticos e profissionais. A mostra funciona, assim, como espaço de descoberta e circulação para obras que não contam com campanhas milionárias nem com a visibilidade oferecida por grandes lançamentos.

Realizada pela Universo Produção, a CineBH acontece em diálogo com o Brasil CineMundi, encontro voltado ao desenvolvimento e à coprodução de projetos audiovisuais. Miguel Arcanjo, mineiro de Belo Horizonte, relacionou a mostra a outros eventos organizados pela instituição: a Mostra de Cinema de Tiradentes, dedicada a novos caminhos do audiovisual brasileiro, e a CineOP, em Ouro Preto, voltada ao cinema como patrimônio, memória, preservação e educação.

Na CineBH, produtores e diretores apresentam projetos a profissionais e festivais de diferentes partes do mundo. O encontro pode anteceder a existência de um filme concluído e abrir possibilidades de parceria, financiamento e coprodução internacional.

Nesse ambiente, crítica e festival cumprem funções complementares. A mostra oferece o encontro com o filme; a crítica organiza uma leitura e prolonga a conversa. O público, por sua vez, decide o que fazer com esse olhar.

A experiência coletiva de assistir, discutir, discordar e procurar novas obras é uma das razões pelas quais os festivais permanecem relevantes. O filme não termina necessariamente quando as luzes se acendem: muitas vezes, é a partir desse momento que começa sua trajetória entre espectadores, realizadores e críticos.

Texto produzido pela Redação Olhar Plural com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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