Alice Hoffman encontrou na figura da bruxa uma forma de elaborar a própria sensação de não pertencimento. Aos 74 anos, a autora de Da Magia à Sedução identifica na família Owens, criada há mais de 30 anos, uma conexão pessoal que passou a orientar boa parte de sua produção literária.
“Só percebi muito recentemente que escrevo sobre bruxas porque eu era uma excluída”, disse Hoffman. A declaração resume uma trajetória marcada por mudanças: ela enfrentou um câncer de mama, passou por um divórcio, cursou teologia e continuou escrevendo sobre mulheres que atravessam luto, traição, desejo e vínculos familiares.
O romance mais recente da escritora, As Bruxas de Cambridge, chega às livrarias americanas nesta terça, 8. A obra alterna entre a Nova Inglaterra puritana e a década de 1950, além de ser planejada como o primeiro volume de uma série.
Da família Owens ao cinema
Publicado como uma história sobre Sally e Gillian Owens, irmãs diferentes entre si, mas unidas pela bruxaria e pela lealdade familiar, Da Magia à Sedução acompanha também duas tias que oferecem feitiços e poções a mulheres marcadas por amores frustrados e desejo de vingança.
A família, porém, carrega uma maldição: qualquer homem que se apaixone por uma mulher Owens morrerá tragicamente. A adaptação cinematográfica de 1998 levou Sandra Bullock, Nicole Kidman, Stockard Channing e Dianne Wiest aos papéis centrais. O filme não teve sucesso imediato nas bilheterias, mas conquistou posteriormente um público duradouro.
Hoffman associa essa permanência ao desejo por uma comunidade formada em torno de mulheres que se ajudam. A nostalgia da década de 1990 também contribuiu para a recepção da obra. O universo criado pela autora voltou às telas em Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor, baseado em O Livro da Magia, publicado em 2021.
A escritora atribui parte da origem do livro ao acaso. Segundo ela, os personagens simplesmente apareceram durante um verão em Wellfleet, Massachusetts. A adaptação também se tornou possível quando Nicole Kidman leu o romance e demonstrou interesse em transformá-lo em filme.
O retorno à família Owens ocorreu duas décadas depois do lançamento cinematográfico. Hoffman publicou ainda As Regras da Magia, em 2017, e Lições de Magia, em 2020. A série acabou incorporando diferentes momentos da história dessas mulheres e ampliando o alcance da narrativa iniciada no primeiro romance.
Uma autora entre a magia e a história
Hoffman cresceu em Long Island, depois de nascer na cidade de Nova York, durante a década de 1950. Sua mãe, assistente social e divorciada, teve uma sucessão de namorados, e parte da família rompeu relações com as duas. A autora contou que se sentia deslocada quando os pais de seus amigos não permitiam que eles visitassem sua casa.
Aos 21 anos, escreveu Property Of, seu primeiro livro, sobre o romance entre uma adolescente e um integrante de uma gangue. Desde então, publicou mais de 30 romances. Marysue Rucci, sua editora nos últimos 11 anos, descreveu Hoffman como a escritora mais prolífica com quem trabalhou e destacou sua capacidade de construir mundos a partir de pequenos fragmentos históricos.
As Bruxas de Cambridge nasceu de um trabalho acadêmico desenvolvido enquanto Hoffman estudava na Harvard Divinity School, onde se formou em 2024. A tarefa era escrever sobre alguém em Harvard de quem os alunos discordassem. Ela escolheu Increase Mather, puritano e um dos primeiros presidentes da universidade, que participou dos julgamentos das bruxas de Salem.
Na ficção, a trajetória de Mather se cruza com a vida de duas amigas no Radcliffe College durante a década de 1950. Ava, vinda de uma pequena cidade do Maine, descobre sua linhagem de bruxaria na faculdade. Lauren, mais destemida, conduz a amiga por um caminho mais sombrio da magia. O macartismo compõe o pano de fundo da narrativa.
Para escrever o livro, Hoffman participou de encontros de ex-alunas de Radcliffe, visitou a Biblioteca Schlesinger e consultou coleções privadas do Museu de História Natural de Harvard. A pesquisa reforçou uma ideia que atravessa sua obra: “magia, ciência e religião não são tão diferentes entre si”.


