SANTOS — A organização internacional de preservação do patrimônio moderno Docomomo definiu Márlio Raposo Dantas como um nome essencial da arquitetura moderna do litoral paulista. Para a entidade, o arquiteto “Imprimiu, na paisagem urbana da cidade, uma linguagem própria”. Márlio morreu aos 90 anos, de parada cardiorrespiratória, em 11 de agosto.
Nascido em Olinda (PE), ele iniciou a formação em arquitetura no Recife e a concluiu no Rio de Janeiro. Nesse período, trabalhou com profissionais como Burle Marx, com quem colaborou em projetos conhecidos, entre eles o do aterro do Flamengo. Em 1962, mudou-se para Santos por sugestão do padrasto.
Ao longo da carreira, executou cerca de 150 projetos de prédios e casas, em sua maioria no litoral paulista. Entre os trabalhos associados a seu nome estão o Universo Palace, conhecido pela boate Pink Panther, e o Vila Rica Center. Em 2009, passou a morar na Casa da Pitaya, residência projetada por ele nos anos 1980, em Cunha, no interior paulista.
Edifícios que se tornaram referências
Em Santos, algumas construções passaram a integrar a memória e as referências visuais da cidade. O Nilo Branco, chamado de “prédio amarelo”, fica em frente ao Museu do Café e também esteve entre as obras que provocaram polêmica.
O Lex Urbis, edifício de escritórios no centro de Santos, era o projeto de que Márlio mais gostava. A construção se destaca pelos quebra-sóis verdes e azuis e foi uma das primeiras da região a contar com elevador panorâmico. O prédio fica atrás da catedral.
Quando abriu a DRM Construções, em 1978, o arquiteto decidiu colocar o próprio nome em evidência nas placas das obras. Segundo ele, a medida valorizava a profissão dos arquitetos. A família afirma ter conhecido ao menos duas pessoas jovens batizadas com nome inspirado no seu, formado a partir de Maria das Dores e Júlio, seus pais. O último Censo registra 327 Márlios no Brasil e 19 no estado de São Paulo.
Professor e homem de hábitos domésticos
Márlio lecionou na Unisanta (Universidade Santa Cecília) de 1997 a 2012. Era descrito como disciplinado, técnico, criativo e um tanto rígido; em sala, também era conhecido por contar histórias e cobrar mais “molho” nos projetos dos alunos.
Segundo a filha, a arquiteta Flávia Neves Dantas, ele era caseiro, cultivava plantas e árvores frutíferas e apreciava especialmente pitayas e lichias. Gostava de cantar bossa nova para os entes queridos, saía pouco e fazia questão de levar a família à Bienal de Arte de São Paulo. Deixou mulher, 4 filhos, 9 netos e 1 bisneta.


