RIBEIRÃO PRETO — A autonomia para circular e participar das atividades foi um dos pontos centrais da acessibilidade na Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto. O evento ofereceu interpretação em Língua Brasileira de Sinais (Libras), experiências baseadas em diferentes sentidos e estruturas para deslocamento e acolhimento do público.
A iniciativa também se refletiu em experiências individuais. Anderson, estudante do terceiro ano do ensino médio da Escola Estadual Conde Francisco Matarazzo, nasceu cego e está sendo alfabetizado. Durante a visita à feira, comprou dois livros em Braille: um sobre carros e outro sobre dinossauros.
Aprender pelas mãos
Acompanhado pelo professor de apoio Otton Omar Balthazar, que está com ele desde o começo do ano, Anderson passa cerca de seis horas por dia revisando os conteúdos da escola regular. Ele já aprendeu a escrever em Braille, mas ainda tem dificuldade para reconhecer os pontos menores produzidos pela máquina.
Para desenvolver a sensibilidade das mãos do estudante, o professor utiliza peças maiores que permitem formar letras. Na feira, também presenteou Anderson com uma publicação sensorial, feita para ser explorada por meio das texturas. “Quanto mais ele tiver essa sensibilidade, melhor vai ser a leitura”, explicou Otton.
O deslocamento foi tratado como parte do aprendizado. Na escola, Anderson é estimulado a identificar sozinho o caminho até a sala de aula e o banheiro. Na Biblioteca Sinhá Junqueira, a equipe apresentou as rotas disponíveis, perguntou sobre o uso das escadas e ofereceu o elevador.
Para Otton, o apoio deve facilitar a circulação sem substituir as escolhas do estudante. “Se ficar o tempo inteiro sendo guiado, nunca vai ser autônomo”, afirmou.
Libras além das palestras
A consultora de acessibilidade Ingrid Loyo, de 24 anos, é surda e visitou a feira pela segunda vez. Ela relatou que encontrou uma experiência mais acessível e acolhedora, sobretudo pela presença de uma intérprete de Libras, que ajudou na comunicação e no acompanhamento da programação.
Ingrid trabalha na biblioteca do Senac e afirma gostar de ler. Para ela, porém, o acesso aos livros também passa pela tradução, já que Libras é a primeira língua de parte da comunidade surda, enquanto o português ocupa o lugar de segunda língua.
Durante a visita, Pamela Cupaiuolo Tognon Oliveira, coordenadora da equipe de acessibilidade em Libras, acompanhou a consultora em conversas com expositores, pedidos de informação e atividades realizadas ao longo do dia. Intérpretes também ficaram distribuídos em pontos específicos e em ações identificadas como acessíveis.
No balcão de informações, o público surdo pôde consultar a programação, verificar quais atrações tinham Libras e receber orientação para chegar aos espaços. Palestras e oficinas com interpretação foram marcadas com um símbolo no material de divulgação. Na Tenda Sesc Senac, o serviço acompanhou a programação.
Nesta edição, Ingrid também atuou como consultora e ajudou a divulgar o evento para a comunidade surda. Entre as atividades acompanhadas por ela esteve uma oficina de aromaterapia e óleos essenciais, voltada ao olfato e à exploração prática do conteúdo.
Planejamento dos espaços
A 25ª edição reuniu palestras, oficinas, bate-papos e experiências sensoriais em diferentes espaços de Ribeirão Preto. Além do tato e da audição, as propostas exploraram o olfato e outros sentidos.
De acordo com Priscilla Altran, vice-presidente da Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto, o planejamento de cada edição considera rampas, banheiros acessíveis, passarelas e rotas de circulação. O projeto também leva em conta os trechos de paralelepípedos do calçadão.
A organização afirma que a participação não deve ficar restrita a atividades criadas especificamente para pessoas com deficiência. A proposta é permitir o acesso a toda a programação, desde a chegada e a busca por informações até a circulação e o acompanhamento das atrações.
Além da estrutura física, o trabalho inclui a preparação das equipes, o acolhimento e a forma de abordagem do público. A acessibilidade, nesse modelo, acompanha a experiência completa do visitante, incluindo as condições para que ele possa escolher onde ir, compreender o que é oferecido e participar das atividades.


