A desvalorização dos jumentos no meio rural e a procura internacional por sua pele são apontadas por pesquisadores como possíveis fatores para o aumento do transporte de animais do Piauí para unidades de abate na Bahia. De acordo com a Adapi, cerca de 3,5 mil jumentos foram enviados ao estado vizinho entre janeiro e agosto de 2026, quase três vezes o total registrado em todo o ano de 2025.
Marcos Parente, no Sul do Piauí, concentra a maior quantidade de asininos destinados ao abate. Os animais são comprados por proprietários e reunidos em uma propriedade rural antes do embarque. A partir do município, o trajeto até os estabelecimentos de destino pode ultrapassar 1,3 mil quilômetros: são cerca de 1.141 quilômetros até Amargosa, na Bahia, e 1.314 quilômetros até Itapetinga, também na Bahia.
Pele concentra o interesse econômico
A pele é o principal produto de interesse econômico da atividade. Depois de passar por tratamento e conservação no Brasil, ela é exportada para a China e utilizada na produção do ejiao, produto tradicional da medicina chinesa elaborado a partir do colágeno presente no material. A carne também é enviada ao exterior como subproduto.
Raniel Lustosa afirmou que a China reduziu significativamente sua população de jumentos nas últimas décadas e passou a buscar essa matéria-prima em outros países. No mercado asiático, uma pele pode ser vendida por até R$ 4 mil. Segundo o pesquisador, o valor pago pelo animal varia entre R$ 50 e R$ 150, enquanto a pele pode ser comercializada pelos estabelecimentos de abate por cerca de R$ 1 mil a R$ 1,5 mil. No mercado oriental, os valores ficam entre R$ 2 mil e R$ 4 mil, conforme o processamento e o produto final.
“Essa baixa utilização, junto com a proliferação desordenada, faz com que eles sejam comercializados por valores muito baixos”, explicou Raniel.
Mecanização reduziu o uso no campo
Historicamente empregado no transporte e em atividades agrícolas, o jumento perdeu espaço com a mecanização do campo. Para Raniel, essa mudança fez com que o animal passasse a ser visto, em muitas regiões, como sem utilidade econômica.
Patrícia Tatemoto, pós-doutoranda no Instituto de Ciências Biomédicas da USP e consultora de campanha no Brasil pela organização britânica The Donkey Sanctuary, avaliou que a desvalorização contribuiu para um modelo extrativista. A pesquisadora também destacou que não há produção organizada em fazendas, em parte porque a gestação dura cerca de 12 meses e o animal leva aproximadamente 18 meses após o nascimento para alcançar uma idade considerada adequada para o abate. O intervalo entre a reprodução e a chegada à unidade de abate é de cerca de dois anos e meio.
Transporte exige fiscalização
Os jumentos são levados em caminhões, sob regras de bem-estar animal. A capacidade dos veículos deve ser respeitada, e viagens com duração superior a 12 horas exigem paradas para alimentação e hidratação. O uso de instrumentos de choque durante o embarque é proibido.
A Guia de Trânsito Animal, documento obrigatório para o transporte, também acompanha o crescimento da movimentação. Em 2026, foram emitidas mais de 70 guias, ante 26 em 2025 e oito em 2024. Naquele ano, 303 jumentos foram enviados para abate.
Após a emissão da GTA, a Adapi acompanha os animais somente até a saída do Piauí. O monitoramento ocorre em Cristalândia, no Sul do estado, onde há um posto fixo de fiscalização agropecuária. A quantidade recebida nas unidades de destino é conferida por fiscais federais responsáveis pela inspeção do abate.
Daniela Rabelo informou que o compartilhamento de informações entre a Adapi e os órgãos de fiscalização da Bahia ocorre “Somente se solicitado”.


