SÃO PAULO — O ato bolsonarista de 7 de Setembro na Avenida Paulista reuniu bandeiras dos Estados Unidos e de Israel, referências a Donald Trump e cartazes favoráveis à intervenção estrangeira nas eleições brasileiras. No palanque, porém, os principais discursos evitaram mencionar o presidente estadunidense e concentraram os ataques no ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.
A mudança ocorreu em relação à manifestação de 7 de Setembro de 2025, quando uma grande bandeira dos Estados Unidos foi estendida sobre a avenida. Desta vez, o público levou um boneco de Trump, placas em inglês, bonés com as mensagens “Trump 2028” e “Make America Great Again”, além de um manifestante vestido como Elvis Presley.
Cartazes pediam que Trump acompanhasse as eleições brasileiras e defendiam uma intervenção do presidente dos Estados Unidos no processo eleitoral. A presença desses símbolos contrastou com a postura dos políticos que discursaram. A ingerência externa se tornou um tema sensível durante a disputa eleitoral. Pesquisa Datafolha divulgada em agosto indicou que 50% dos brasileiros viam possibilidade de interferência estrangeira nas eleições. Do total, 32% consideravam isso um problema, enquanto 18% não viam problema.
Moraes no centro dos discursos
As recentes revelações sobre as relações de Moraes com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, alimentaram pedidos de afastamento ou impeachment do ministro e a defesa de uma maioria de direita no Senado. Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência, não citou Vorcaro em seu discurso, apesar de ter tido uma relação direta com o empresário e de chamá-lo de irmãozão enquanto pedia dinheiro a ele.
Flávio declarou: “Esse consórcio de Lula com Moraes vai acabar”. Também afirmou que, se eleito, indicará ao Supremo ministros contrários ao aborto, às drogas e ao que chamou de ideologia de gênero nas escolas. O candidato comparou a condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado a uma segunda facada, em alusão ao atentado sofrido pelo pai durante a campanha de 2018. Sem apresentar provas, disse que os adversários planejariam uma nova interferência nas eleições.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, adotou um tom menos agressivo, mas defendeu uma reação do Senado. A Casa tem a atribuição constitucional de analisar eventuais pedidos de impeachment de ministros do Supremo. Para Tarcísio, a eleição de parlamentares de direita será importante nesse processo.
Nikolas Ferreira, deputado federal por Minas Gerais, pediu a saída de Moraes e afirmou que os bolsonaristas retirariam “esse sorrisinho debochado” do rosto do ministro. Também disse que o lugar de Moraes seria a cadeia e prometeu realizar um ato em frente à casa de Davi Alcolumbre para pedir o impeachment.
Silas Malafaia chamou Moraes de ditador da toga e pediu ao presidente do STF que afastasse o ministro. Ao mesmo tempo, disse que a ofensiva não pretendia desmoralizar a Corte. Em outro momento, defendeu que o grupo deveria atacar politicamente o magistrado.
Malafaia também mencionou o Banco Master, sem abordar as relações de aliados presentes no ato com Vorcaro. Nikolas Ferreira trocou mensagens com o empresário e pediu ajuda para resolver uma questão relacionada a um ativo minerário de um conhecido. O deputado nega ter recebido dinheiro de Vorcaro.
Tarcísio recebeu R$ 2 milhões de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e maior doador individual de sua candidatura ao governo de São Paulo em 2022. O governador nega favorecimento, afirma nunca ter tido contato com Vorcaro ou Zettel e classificou a acusação como algo que beira o ridículo.
A mudança na relação com Trump
A ausência de menções a Trump no palanque contrastou com manifestações anteriores de Flávio. Em julho de 2025, depois que o presidente dos Estados Unidos anunciou uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, o senador publicou mensagens de agradecimento ao republicano e compartilhou uma publicação de Eduardo Bolsonaro na mesma linha.
No final de agosto deste ano, já como candidato à Presidência, Flávio afirmou em sabatina ao Jornal Nacional que Eduardo havia errado ao agradecer pelas tarifas. A declaração ocorreu depois da recuperação da publicação de 2025, na qual o próprio Flávio também havia agradecido a Trump.
Em julho, o senador enviou ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos um pedido para que uma nova tarifa de 25% contra o Brasil não fosse aplicada antes das eleições. Na solicitação, argumentou que a medida poderia ser interpretada como uma tentativa de influenciar a disputa brasileira e beneficiar o governo de Lula.
Soberania como resposta em Brasília
Em Brasília (DF), o governo Lula colocou a soberania nacional no centro das comemorações oficiais. Em pronunciamento na véspera, o presidente disse que o Brasil não deveria baixar a cabeça diante de potências estrangeiras e afirmou que o país não seria colônia de ninguém.
Lula defendeu que as riquezas naturais brasileiras sirvam a objetivos definidos no próprio país. Mencionou terras raras, petróleo e água doce e sustentou que minerais críticos e outros recursos estratégicos devem contribuir para a criação de tecnologia e empregos nacionais. Também afirmou que nenhum governante estrangeiro poderia determinar com quem o Brasil compra ou vende.
O desfile na Esplanada dos Ministérios adotou o lema Soberania: a força que une o Brasil. A cerimônia reuniu blindados, mísseis, embarcações e aeronaves, além de máquinas da agricultura familiar, estoques públicos de alimentos, ações de vacinação, educação, proteção ambiental e defesa das riquezas naturais. Cerca de 4 mil civis e militares participaram.
O evento também abordou a violência contra meninas e mulheres e a Copa do Mundo Feminina de 2027. Nas arquibancadas, parte do público pediu o fim da escala 6×1, manifestou apoio a Lula e se posicionou contra a anistia aos envolvidos nos atos golpistas. A cerimônia teve a presença de Hugo Motta, Davi Alcolumbre e Edson Fachin.


