O futuro do Instituto do Verbo Encarnado (IVE) e das Servas do Senhor e da Virgem de Matará (SSVM) será submetido a uma revisão após a conclusão de tribunais eclesiásticos do Vaticano sobre o fundador das duas congregações, o padre argentino Carlos Miguel Buela. O comunicado prevê mudanças no carisma, na espiritualidade, na formação e no apostolado das entidades.
A Santa Sé afirmou que a reavaliação deverá separar “o dom do Espírito concedido para a edificação da Igreja e as limitações ou ações pessoais do fundador”. O objetivo declarado é contribuir para a restauração da verdade e fazer justiça às pessoas prejudicadas por Buela.
Decisão dos tribunais
O Tribunal Penal Especial de Primeira Instância e o Tribunal de Apelações concluíram que o religioso foi responsável por um crime contra o Sexto Mandamento, cometido com violência contra várias pessoas, conforme o cânon 1395 § 2. Os dois órgãos disseram ter “certeza moral” sobre a responsabilidade de Buela.
A decisão foi comunicada na terça-feira, 29, pela irmã Simona Brambilla, prefeita do Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica. Também participaram o bispo José Antonio Satué Huerto, de Teruel e Albarracín, na Espanha, e a irmã Clara Echarte.
Satué e Echarte são delegados pontifícios responsáveis, respectivamente, pelos ramos masculino e feminino das instituições. Nomeados pelo papa Francisco pouco antes da morte dele, em janeiro de 2025, os dois reuniram em Roma, em 14 de setembro, as superioras do IVE e da SSVM para apresentar o resultado do julgamento.
Denúncias e afastamento
Buela morreu em 23 de abril de 2023, depois de viver recluso em um mosteiro de Gênova, na Itália. Ele havia sido suspenso em 2010, após denúncias apresentadas por quase vinte seminaristas sobre fatos ocorridos na década de 2000.
As denúncias envolviam adultos vulneráveis, não menores de idade. Por essa razão, o caso foi transferido da então Congregação para a Doutrina da Fé para o Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada.
Em 2001, a Cúria argentina havia promovido o fechamento do IVE e da SSVM. Durante o papado de João Paulo II, o Vaticano aprovou a transferência da sede para a diocese de Velletri-Segni, perto de Roma. As congregações haviam sido criadas em San Rafael, na província de Mendoza, em 1984.
O cardeal espanhol Santos Abril y Castellò atuou como comissário pontifício do IVE após problemas internos de gestão e acusações contra Buela por abuso de poder e conduta sexual imprópria. Ele encerrou a função em 2025, quando os delegados pontifícios assumiram o acompanhamento da formação, da disciplina, do apostolado e da governança das duas entidades.
Atuação internacional
De acordo com o site do IVE, o instituto está presente em 45 países, distribuídos por cinco continentes, e mantém sete casas de formação. Seus membros atuam em regiões de conflito e áreas remotas.
O padre Gabriel Romanelli, pároco de Gaza, pertence ao instituto e recebe apoio de freiras da SSVM. Sacerdotes do IVE também recebiam visitas do papa Francisco em Vanimo, na Papua Nova Guiné, em setembro de 2024.
O site do IVE identifica Buela como fundador, mas não menciona os crimes cuja responsabilidade foi reconhecida pelos tribunais eclesiásticos.


