SÃO PAULO — A trajetória de Anísio Teixeira ganha forma em fotografias, cartas, livros, vídeos, projetos arquitetônicos e objetos pessoais reunidos na Ocupação Anísio Teixeira, em cartaz no Itaú Cultural até 15 de novembro de 2026. A mostra recupera experiências escolares, políticas públicas e aspectos da vida do educador baiano, além de recolocar em debate temas como educação integral, formação de professores e o papel da escola pública na democracia.
Publicado no livro Educação progressiva, de 1934, um princípio resume a concepção que orientou parte de sua atuação: “Educar é crescer. E crescer é viver.” A exposição permite observar como essa perspectiva se traduziu em projetos concretos, sobretudo na organização de escolas pensadas para combinar formação acadêmica, atividades artísticas, práticas físicas e participação dos estudantes.
Em 2024, Anísio foi reconhecido como patrono da educação pública brasileira. Para Jéssica Botossi, coordenadora do Núcleo de Formação e Fomento do Itaú Cultural, revisitar seu trabalho ajuda a perceber a presença do educador em políticas e instituições que nem sempre são associadas diretamente a ele.
Educação integral para além do tempo ampliado
Uma das experiências centrais de Anísio começou a ser estruturada na década de 1950, em Salvador, com o Centro Educacional Carneiro Ribeiro. O complexo reunia as Escolas-Classe, destinadas aos componentes curriculares regulares, e a Escola Parque, voltada a atividades artísticas, físicas, recreativas e de trabalhos manuais.
A proposta não tratava a educação integral apenas como permanência mais longa na escola. A ampliação da jornada deveria abrir espaço para outras experiências de aprendizagem. Entre as atividades representadas na exposição estão música, educação física, recreação e oficinas de couro, sapataria, madeira, metal e cerâmica.
Anísio levou essa concepção para Brasília. A primeira Escola Parque da cidade entrou em funcionamento em 1960, dentro de um plano que previa 28 unidades. Cinco foram construídas no Plano Piloto. Hoje, o Distrito Federal tem oito Escolas Parque, cinco delas no Plano Piloto.
O livro Memórias da Escola-Parque de Brasília, de Ingrid Dittrich Wiggers, consultora da ocupação, registra o distanciamento entre o projeto implantado e a concepção original, com a suspensão do ensino integral e alterações no currículo. A história preserva parte do legado de Anísio, mas também expõe os limites de sua implantação.
Escola Nova e participação dos estudantes
Em 1932, Anísio esteve entre os educadores que assinaram o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova. O documento defendia uma escola pública, gratuita e laica, acessível a todos, e propunha mudanças profundas na organização da educação brasileira.
A Escola Nova questionava um ensino baseado sobretudo na transmissão e na memorização de conteúdos. Em seu lugar, propunha uma aprendizagem relacionada às experiências e aos interesses dos estudantes, com participação ativa no processo educativo.
Anísio teve contato direto com essas ideias durante seus estudos nos Estados Unidos, onde foi aluno de John Dewey, filósofo e educador associado à educação progressiva. Ao retornar ao Brasil, passou a defender uma escola em que aprender estivesse ligado à experiência e à participação dos alunos.
Para Jéssica Botossi, a permanência desses princípios no debate educacional ajuda a explicar a atualidade de Anísio. A pesquisadora observa, porém, que o modelo ideal defendido pela Escola Nova ainda não foi alcançado.
Documentos de uma experiência escolar
A ocupação apresenta plantas arquitetônicas, boletins, fotografias e objetos que ajudam a reconstruir o cotidiano das Escolas Parque. Parte desse material foi preservada por José Mendes de Oliveira, que vivenciou a Escola Parque de Salvador como aluno, professor e zelador, além de ter morado na instituição.
Mendes guardou boletins, certificados e um cheque do “banco da escola”, usado pelos estudantes em atividades práticas relacionadas ao dinheiro. Os documentos foram organizados em pastas e incorporados à exposição como registros de uma trajetória individual ligada à história da instituição.
A própria montagem procura aproximar o visitante dessa experiência. O espaço é aberto e não impõe uma direção única para o percurso. A paisagem sonora foi gravada na Escola Parque de Brasília, e uma projeção apresenta ambientes da instituição.
O educador além do gestor público
A mostra também dedica espaço ao “Anisinho”, apelido usado pela família. Cartas, fotografias, livros e objetos pessoais apresentam uma dimensão menos conhecida do educador. Filhos e netos contribuíram para a pesquisa ao disponibilizar documentos e materiais guardados pela família.
Em caixas de correio, o visitante encontra reproduções de cartas acompanhadas de transcrições. Um telefone de época permite ouvir a narração de uma mensagem escrita por Anísio para a esposa. As correspondências incluem mensagens de alunos das Escolas Parque, que o convidavam para atividades como inaugurações de hortas e bibliotecas.
A exposição registra ainda vínculos com nomes da cultura e da educação brasileiras, entre eles Darcy Ribeiro, Paulo Freire e Thiago de Mello. Em Capitães da Areia, publicado em 1937, Jorge Amado incluiu Anísio entre os homenageados e o chamou de “amigo das crianças”. Uma dedicatória do escritor reforça a relação e menciona a capacidade que atribuía ao educador de compreender as crianças retratadas no romance.
Instituições e uma morte sem conclusão definitiva
Anísio foi diretor do Inep, o Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos, de 1952 a 1964. A instituição hoje leva seu nome. Ele também atuou como secretário-geral nos primeiros anos da Capes, a Campanha de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, e participou da criação da UnB, a Universidade de Brasília, ao lado de Darcy Ribeiro.
Na concepção da universidade, Darcy definiu suas bases, Anísio planejou o modelo pedagógico e Oscar Niemeyer elaborou o projeto dos edifícios. A atuação do educador nessas instituições expressava a tentativa de aproximar escola pública, pesquisa e formação de professores e pesquisadores.
A ocupação também aborda a morte de Anísio. No início de 1971, ele se preparava para concorrer a uma cadeira da ABL, a Academia Brasileira de Letras. Em 11 de março, depois de participar de uma conferência na FGV, no Rio de Janeiro, dirigiu-se ao edifício onde morava o escritor Aurélio Buarque de Holanda. Não chegou ao encontro. Dois dias depois, seu corpo foi encontrado no poço do elevador.
A versão divulgada na época apontou uma queda acidental. Relatos e documentos conhecidos posteriormente levantaram dúvidas sobre essa explicação. As circunstâncias foram investigadas pela Comissão Nacional da Verdade e pela Comissão Anísio Teixeira de Memória e Verdade da Universidade de Brasília. O relatório da comissão da UnB reuniu elementos que questionam a versão de morte acidental, mas não estabeleceu uma conclusão definitiva.
A mostra é a 75ª edição do programa Ocupação Itaú Cultural. Para quem está fora de São Paulo, o site especial reúne vídeos, documentos e outros conteúdos. Educadores também podem acessar o curso gratuito e autoformativo Anísio Teixeira e a Educação Integral, da Escola Fundação Itaú, com 4 horas de duração e certificado.
A exposição está no Itaú Cultural, na Avenida Paulista, 149, Bela Vista, São Paulo. A curadoria é do Itaú Cultural e do Itaú Social, com consultoria de Ingrid Dittrich Wiggers.


