Maximilian Davis usou uniformes, roupas utilitárias e a silhueta marcada dos anos 1940 para propor uma nova leitura da mulher Ferragamo. A coleção de primavera/verão 2027, apresentada no sábado, 26, no Palazzo dell’Arte, durante a Semana de Moda de Milão, articulou austeridade e sedução sem deixar que o arquivo da marca limitasse a criação contemporânea.
A pesquisa visual teve como uma de suas referências a trajetória de Lee Miller, fotojornalista que atuou pelo Exército dos EUA para a Vogue britânica. Antes de se tornar fotógrafa, Miller integrou o círculo surrealista e trabalhou com Man Ray. Também entraram na investigação de Davis seu período no Egito, nos anos 1930, e as experiências com a solarização, técnica em que a exposição à luz durante a revelação modifica parcialmente os tons da imagem.
Luz, matéria e estrutura
A borracha translúcida ocupou lugar central na coleção. Aplicada a trench coats, vestidos e conjuntos de saia, ela modificava a percepção da pele conforme a incidência da luz: os contornos se definiam nos pontos de contato e pareciam desaparecer quando o material se afastava do corpo. O azul-hospitalar, apresentado pela grife entre as chamadas cores clínicas, reforçou o aspecto fetichista e provocador de algumas peças.
A construção das roupas retomou o rigor da alfaiataria dos anos 1940. Ombros marcados e arredondados ampliavam a parte superior do corpo, enquanto cinturas bem definidas, em certos looks reforçadas por dois cintos sobrepostos, recuperavam uma silhueta rígida. Em contraste, os drapeados, uma das assinaturas de Davis na Ferragamo, acrescentaram movimento. Sedas enroladas, suspensas ou atravessadas no corpo como grandes lenços criaram volumes que se transformavam durante o caminhar.
Bolsos e elementos internos permaneceram aparentes em algumas peças, convertendo a estrutura da roupa em recurso visual. Assim, mesmo os looks mais fluidos mantiveram a precisão que orientou a coleção.
O arquivo como linguagem atual
Nos sapatos, Davis revisitou o salto em formato de “F”, criado por Salvatore Ferragamo em 1947 e associado à Sandália Invisível, modelo feito com fios transparentes que produzia a impressão de suspender o pé sobre a sola. A referência reapareceu de modo menos literal em saltos finos, sandálias e modelos abertos, com tiras reduzidas e geometria precisa.
O laço Vara e o fecho Gancini, outros símbolos da casa, também foram incorporados aos acessórios sem os excessos de suas formas históricas. Em vez de reproduzir o passado, a coleção retirou do arquivo elementos reconhecíveis e os colocou a serviço de uma linguagem contemporânea e de um pragmatismo comercial voltado ao mercado atual.


