OSLO — Novas análises científicas aprofundam o conhecimento sobre as experiências de Hercule Florence e indicam como o inventor franco-brasileiro produziu e preservou imagens com a ação da luz. Os resultados serão apresentados nesta quinta, 17, durante a 21ª Conferência Trienal do International Council of Museums – Committee for Conservation, em Oslo, na Noruega.
Florence nasceu na França, mas se estabeleceu no Brasil, na Vila de São Carlos, então parte de Campinas, no interior de São Paulo. Em seus diários, consciente da distância em relação aos grandes centros europeus de pesquisa, descreveu-se como “o inventor no exílio”. Além de desenvolver um método de registro de imagens, ele empregou o termo fotografia e se tornou um dos pioneiros independentes da técnica.
Evidências materiais dos experimentos
O estudo foi realizado em colaboração entre o Getty Conservation Institute, um laboratório da Universidade de Évora, o Instituto Hercule Florence e o Instituto Moreira Salles. Os pesquisadores examinaram três documentos fotográficos produzidos por Florence em 1833: dois rótulos de produtos farmacêuticos e um diploma da maçonaria.
As análises identificaram sais de ouro nos rótulos de farmácia. No diploma, foi confirmado o uso de prata, material que posiciona Florence como o primeiro a empregá-lo na história da fotografia, conforme a pesquisa. Os experimentos também envolveram água e urina, além dos metais.
Para Art Kaplan, cientista do Getty Conservation Institute, o exame dos documentos permitiu ultrapassar as descrições presentes nos diários e observar diretamente os vestígios físicos do processo. Ele classificou o conjunto como “alguns dos objetos fotográficos mais antigos não apenas das Américas, mas de todo o mundo”.
Os estudos começaram a ser apresentados três anos atrás, em um seminário em São Paulo, e foram aprofundados desde então para esclarecer como Florence fixava e estabilizava as imagens. Os pesquisadores devem continuar investigando os processos desenvolvidos pelo inventor.
Conservação e reconhecimento histórico
A sobrevivência dos documentos impõe desafios. As impressões dos rótulos ainda apresentam imagens nítidas e claramente definidas, enquanto o diploma sofreu desbotamento significativo. Materiais residuais indicam que parte da imagem pode não ter sido estabilizada, o que mantém o documento sensível à luz.
A conservação exige armazenamento adequado e exposição muito limitada à iluminação, porque as imagens continuam vulneráveis a uma deterioração adicional. O estado dos documentos varia, e a permanência de registros produzidos há quase dois séculos depende do controle dessas condições.
O resgate da importância de Florence para a fotografia ganhou impulso há 50 anos com o historiador, fotógrafo e arquiteto Boris Kossoy, professor da Universidade de São Paulo. Ele publicou o livro Hercule Florence, a descoberta isolada da fotografia no Brasil, resultado de pesquisas sobre os manuscritos e os remanescentes da produção do inventor.
Kossoy sustenta que a fotografia não teve um único inventor e destaca a especificidade dos métodos desenvolvidos por cada pioneiro. No caso de Florence, aponta o emprego pioneiro do termo “photographie”.
Tetraneto de Florence e fundador do Instituto Hercule Florence, Antonio Florence ressalta que os experimentos foram conduzidos longe dos centros europeus onde atuavam Nicéphore Niépce, Louis Daguerre e William Talbot. Kaplan, porém, recomenda cautela ao definir Florence como o único inventor da fotografia: para ele, o desenvolvimento da técnica resultou dos esforços combinados de várias pessoas, com experiências realizadas de modo paralelo e independente.
Nascido em Nice, Florence chegou ao Brasil como marinheiro e permaneceu no país. Trabalhou como caixeiro, livreiro e tipógrafo antes de participar, como desenhista, de uma expedição científica comandada pelo naturalista alemão Georg von Langsdorff. Depois, viveu na Vila de São Carlos, onde continuou suas pesquisas com câmera escura e materiais destinados à revelação e à fixação de imagens.


