SÃO PAULO — O Theatro Municipal de São Paulo volta a apresentar Don Carlo, de Verdi, duas décadas depois de sua montagem anterior na cidade. A nova temporada terá sete récitas, entre 18 e 25 de setembro, com direção cênica de Caetano Vilela, regência de Roberto Minczuk e dois elencos.
A ópera será cantada em italiano, em cinco atos, com duração prevista de 270 minutos, incluindo os intervalos. Ambientada na Espanha do século 16, a trama combina o conflito amoroso em torno da princesa Elisabete de Valois com a disputa de poder entre a monarquia e a Igreja, tendo como eixo a relação entre Don Carlo e seu pai, o rei Felipe II.
Uma obra de grandes proporções
Don Carlo estreou em 1867, na Ópera de Paris, como uma grand opéra, formato marcado pela dimensão monumental e pelo uso de recursos cênicos e visuais. A versão apresentada agora passou por diferentes transformações desde a estreia. Verdi revisou a partitura várias vezes, e uma versão reduzida, em quatro atos, foi escolhida para a montagem paulistana de 2004.
A produção atual será apenas a quarta montagem da obra em São Paulo. A primeira ocorreu em 1892, no Teatro São José, localizado na área da atual Praça Doutor João Mendes. A segunda foi apresentada no Municipal em 1926. A terceira chegou ao palco em 2004, com regência de Ira Levin e direção de Gabriel Villela.
Caetano Vilela adotou cenários abstratos, pintados à mão com elementos expressionistas, além de um trabalho de luz característico de sua direção. Os figurinos remetem ao período histórico da narrativa. “Resolvi não contextualizar a ação em outro período”, afirma Vilela. Para ele, a escolha permite preservar a relação entre a trama e o momento histórico em que ela se passa.
Conflito político e exigência vocal
A obra é a quarta e última ópera de Verdi baseada em peças de Friedrich Schiller. O dramaturgo alemão escreveu Don Carlos em 1787, com uma narrativa que opõe o herdeiro do trono espanhol ao pai e articula o drama amoroso a uma disputa entre liberalismo e absolutismo.
Na adaptação para a ópera, Joseph Méry e Camille Du Locle alteraram alguns elementos do desfecho. O protagonista, que na peça é entregue à Inquisição por Felipe II, é salvo na ópera por um frade associado à figura do imperador Carlos V. Vilela relaciona essa aparição ao universo de Hamlet.
O diretor também buscou no texto alemão aspectos políticos que considerava importantes para a encenação. Entre eles está o confronto entre Felipe II e o Grande Inquisidor, no início do quarto ato. “Schiller é super político”, diz Vilela, ao destacar a tensão entre Igreja e monarquia.
A exigência da partitura também ajuda a explicar a raridade de novas montagens. Minczuk descreve a obra como uma das mais ricas musicalmente que já regeu e destaca a presença de vários protagonistas em papéis de grande importância.
O primeiro elenco reúne Atalla Ayan, Ailyn Pérez, Luiz-Ottavio Faria, Ana Lucia Benedetti, Paulo Szot e Salomon Howard. No segundo, os papéis serão interpretados por Matheus Pompeu, Ludmilla Bauerfeldt, Savio Sperandio, Juliana Taino, Michel de Souza e Valeriano Lanchas.
Para Minczuk, a música de Don Carlo antecipa elementos que apareceriam em Carmen, escrita oito anos depois, especialmente no colorido espanhol associado a uma personagem mezzo-soprano. A temporada sucede as apresentações de Tristão e Isolda, de Wagner, outra obra de longa duração conduzida pelo regente e pelos corpos estáveis do Municipal.


