Uberlândia, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
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Duas estreias brasileiras colocam mulheres surdas no centro do cinema

90 Decibéis e Nem Toda História de Amor Acaba em Morte incorporam a surdez às personagens e à linguagem dos filmes.

Duas estreias brasileiras colocam mulheres surdas no centro do cinema
Foto: TV Globo/Divulgação

Duas estreias brasileiras desta semana deslocam personagens surdas do lugar de representação secundária para o centro da narrativa. Em 90 Decibéis, Benedita Casé Zerbini interpreta uma advogada que perde progressivamente a audição. Em Nem Toda História de Amor Acaba em Morte, Gabriela Grigolom vive Lola, uma mulher surda que se apaixona, trabalha, cria o filho e enfrenta as próprias contradições.

Os filmes chegam ao público em momentos próximos do Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, em 21 de setembro. O primeiro será exibido na TV Globo nesta segunda, 28; o segundo está em cartaz nos cinemas desde quinta, 24. Embora contem histórias diferentes, as duas produções recusam a ideia de que a surdez precise funcionar como obstáculo, metáfora ou explicação total para a vida das personagens.

Uma mulher diante da perda auditiva

Em 90 Decibéis, Ana é uma advogada bem-sucedida e mãe de Theo. Depois de um acidente de carro, descobre que uma dificuldade auditiva já conhecida evoluirá para uma surdez profunda. O diagnóstico, relacionado a uma doença degenerativa nos cílios dos ouvidos, muda sua rotina e afeta o trabalho. Ana perde o emprego, enfrenta o capacitismo no mercado profissional e mais tarde consegue uma vaga em um posto de atendimento voltado a pessoas com deficiência.

A história foi escrita por Julia Spadaccini a partir de uma experiência pessoal. A roteirista também recebeu, na vida adulta, o diagnóstico de perda auditiva bilateral neurossensorial progressiva.

Benedita convive com a surdez desde os três ou quatro anos e estreia como atriz no longa. A aproximação mais imediata com Ana veio da maternidade: o medo de não ouvir o filho, de não conseguir cuidar dele ou de colocá-lo em perigo. Ao mesmo tempo, a atriz procurou não transformar a personagem em uma extensão de sua própria trajetória.

A preparação com Marina Rigueira combinou experiências conhecidas por Benedita e aspectos que pertenciam exclusivamente à personagem. Ana, que passou muitos anos ouvindo de outra maneira, precisa se adaptar já adulta ao uso de aparelho auditivo e aos ruídos, volumes e frequências que acompanham esse processo. Também enfrenta o zumbido associado à perda auditiva progressiva e, sobretudo, a dificuldade de aceitar o lugar social atribuído às pessoas com deficiência.

No posto de atendimento, a personagem passa a conviver com pessoas com diferentes deficiências. A rejeição inicial dá lugar, gradualmente, a uma sensação de pertencimento. Para Benedita, esse deslocamento é uma das questões centrais do filme.

A experiência da atriz também influenciou a forma de filmar. Como a leitura labial exige que ela mantenha os olhos fixos no interlocutor, o diretor Fellipe Barbosa transformou o olhar em elemento visual da personagem. Os closes aproximam o público da maneira como Ana percebe e interpreta as pessoas ao redor.

O som acompanha essa perspectiva. Na abertura, Ana está no carro com Theo, confunde a música do rádio e não percebe que o filho escuta o áudio em volume alto. A movimentação da câmera e a construção sonora estabelecem que mãe e filho não estão ouvindo a mesma coisa.

Durante as filmagens, Benedita interrompeu uma cena porque uma pessoa falava de costas e ela não conseguia fazer a leitura labial. Barbosa pediu que a atriz se aproximasse da colega como faria em sua própria vida. A interrupção foi incorporada ao filme. Cerca de 70% do elenco, segundo o diretor, é formado por pessoas com deficiência.

Lola não é uma representação

Nem Toda História de Amor Acaba em Morte parte de outra relação com a surdez. Lola nasceu e cresceu surda. É jovem, negra, mãe solo, não monogâmica e responsável por uma companhia de teatro independente. Sua vida se cruza com a de Sol, interpretada por Chiris Gomes, uma professora de meia-idade que está se separando de Miguel.

A separação, contudo, não produz uma ruptura imediata. Por falta de uma solução prática, Sol continua morando com o ex-marido, e o relacionamento com Lola se desenvolve dentro de uma casa ainda marcada por móveis, rotinas e ressentimentos do casamento encerrado.

O diretor Bruno Costa quis questionar modelos tradicionais de amor associados ao casal, à família, à monogamia, ao casamento e à separação. O filme também evita fazer de Lola uma personagem destinada a representar grupos ou identidades. “Lola não poderia existir para representar nada”, afirma Costa. Para ele, antes de qualquer definição, ela é uma mulher que deseja, se apaixona, erra, sente ciúme, tem medo, humor, tesão e contradições próprias.

Gabriela participou dessa construção também fora das cenas. Além de atuar, trabalhou como consultora do roteiro ao lado de outros profissionais surdos da equipe técnica. Decisões consideradas naturais na versão inicial precisaram ser revistas, e a presença dessas perspectivas alterou a forma como a história foi desenvolvida.

A produção incorporou a acessibilidade desde a concepção, em vez de deixá-la para a etapa final. A Libras foi compreendida como uma língua com estrutura e experiência visual próprias, o que levou a equipe a pensar como o público surdo receberia o filme.

Uma das soluções foi criar um intérprete de Libras para cada personagem, com o mesmo figurino usado pelo ator ou pela atriz correspondente. A tradução, assim, passa a integrar a imagem do filme. A participação da comunidade surda também serviu para revisar escolhas que poderiam não ser percebidas por uma equipe ouvinte.

Personagens que não precisam ser reduzidas à surdez

Em 90 Decibéis, Ana precisa reconstruir sua comunicação, sua relação com o trabalho e o vínculo com a própria identidade. Em Nem Toda História de Amor Acaba em Morte, Lola não precisa superar a surdez para viver uma história de amor. Ela já chega à narrativa com maternidade, sexualidade, trabalho, desejos e conflitos.

A presença das atrizes se estende, nos dois casos, para além da escalação. Benedita levou experiências pessoais para a composição de Ana, mas também construiu uma mulher diferente de si. Gabriela participou das decisões sobre o roteiro e sobre a forma de contar a história.

As duas produções se aproximam ao permitir que mulheres surdas ocupem o centro da ação sem serem reduzidas à deficiência. A surdez integra suas vidas e interfere na linguagem cinematográfica, mas não esgota aquilo que essas personagens são. “Já passou muito da hora de olhar para essas questões de outra maneira”, afirma Benedita.

Texto produzido pela Redação Olhar Plural com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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